Destruímos seu campeonato em uma semana


Dizer que o Peru está no buraco não é mais apenas um péssimo trocadilho, mas uma análise fiel do futebol de lá por estes dias. Ninguém sabe se a segunda rodada do Campeonato Peruano vai acontecer amanhã. Se ocorrer, ninguém tem certeza de quais jogadores entrarão em campo. Há uma semana, na véspera do início do torneio, o sindicato dos jogadores convocou uma greve geral dos atletas da primeira divisão, em protesto pelos salários atrasados: cerca de 220 jogadores da elite peruana estão sem receber. Os clubes fizeram pouco caso, chamaram a greve de “ilegal” e começaram o campeonato sem os profissionais. Toda a primeira rodada foi disputada com juvenis. Mas a greve seguiu. Nesta semana, demissões em massa e times fechando as portas mantiveram o impasse. O Impedimento preparou um guia para entender o colapso do futebol peruano – e por que esta poderia ser a chance de romper com o caos que branqueia até o pelo das lhamas mais escuras. 

Antecedentes

A implosão do Campeonato Peruano era anunciada. Há anos as equipes do país atrasam salários rotineiramente. No entanto, o Peru tem uma regra rígida que, apesar de criada para proteger os jogadores, foi justamente a razão da derrocada: time que atrasa salários não pode entrar em campo. A severidade da lei faz com que ela seja burlada. Evitando um conflito maior, jogadores e dirigentes assinavam planilhas em que mentiam que os valores eram pagos em dia. A prática é generalizada, e permite que a maior parte dos times siga ativa. As planilhas eram ainda instrumentos de chantagem: quando os atrasos se tornavam alarmantes, os jogadores deixavam de assiná-las e o time perdia pontos. O Peru se tornou campeão sul-americano de pontos perdidos no tapetão. Ao menos uma equipe foi afetada por ano desde 2007, chegando a quatro times em 2010 e 2011.

O ano passado foi recordista: sete resultados foram invertidos nos tribunais, um deles foi ampliado, e ainda houve um caso de W/O. Quase sempre, a origem da briga estava nas planilhas não assinadas. O tradicional Universitario, clube com o pior momento financeiro, foi o que mais sofreu: a certa altura do campeonato, entrava em campo sabendo que não poderia pontuar – se vencesse, o adversário derrotado poderia entrar na justiça e pedir os pontos do confronto, já que os Cremas não honravam os compromissos. O campeonato de 2012 estava pronto para ser uma extensão dos desmandos dos anos anteriores. Apenas duas equipes, ambas amadoras até pouco tempo atrás, haviam sido capazes de zerar suas dívidas com o sindicato dos jogadores e apresentar um orçamento para o ano. Um grupo de clubes liderado pelo Universitario pediu o adiamento da competição. A Federação Peruana não acatou.

O impasse: uma briga entre três poderes

Três organizações podem influenciar o Campeonato Peruano: a Federação (FPF), responsável por formular e fazer cumprir o regulamento, a Associação de Futebol Profissional (ADFP), que representa os clubes, e a Agremiação de Futebolistas (Safap), sindicato que defende os jogadores. Estar irregular com a Safap pode arruinar a campanha de um clube, mas a verdade é que o sindicato não tem voz na definição das diretrizes do campeonato. Para este ano, os clubes resolveram se mancomunar com a FPF para criar uma base legal que diminuísse as dificuldades financeiras. O regulamento aprovado pela ADFP tem um lote de artigos permitindo que as dívidas com os atletas sejam diluídas em até 24 meses.

O sindicato, obviamente, se indignou. “Eles não podem nos impor a maneira como vão nos pagar”, disse Juan Baldovino, o assessor legal da Safap, logo depois de a greve ser iniciada. O pedido fundamental dos jogadores é que o pagamento dos salários atrasados não se estenda por mais que 12 meses. A Agremiação se reuniu com a FPF nesta semana e conseguiu uma vitória aparente: o campeonato seria interrompido até o dia 3 de março, data limite para os clubes renegociarem as dívidas conforme as exigências dos atletas. Se foi acertada a interrupção, por que o campeonato pode ter rodada amanhã? Porque os clubes sustentam que o acordo entre a FPF e a Safap contraria o regulamento, o que tira validade do que foi combinado e, portanto, a competição seguiria normalmente.

As reações cataclísmicas

A destruição do torneio foi muito além da rodada disputada por juvenis. Clubes que não deviam salários e mesmo assim viram seus jogadores aderirem à greve, solidários com os companheiros, reagiram com raiva. O San Martín de Porres foi o principal deles: os dirigentes se recusaram a escalar juvenis e deram W/O na estreia. Time mais vencedor do Peru nos últimos anos (campeão em 2007, 2008 e 2010), o San Martín comunicou oficialmente no dia seguinte que abandonava o futebol profissional e desistia do campeonato. O mesmo caminho seria impensável para clubes mais tradicionais – o San Martín é de empresários –, mas times profissionalizados há pouco ameaçaram seguir o exemplo: o Unión Comercio e o César Vallejo também cogitaram sair do campeonato.

Nenhum dos dois chegou a confirmar a desistência. A posição oficial do Comercio ainda é um mistério. O César Vallejo decidiu ficar, a princípio demitindo todo o elenco. Antes que seus jogadores acatassem as exigências da direção para não perder o emprego, o César Vallejo planejava subsituí-los justamente pelo plantel desempregado do San Martín. Por outro lado, o Inti Gas de Ayacucho mandou mesmo embora os seus grevistas, e o Sport Boys de Callao enviou cartas de demissão para cinco titulares, alegando “baixo rendimento”. Jogadores de outras equipes são fustigados por exigências totalitárias – só mantêm o emprego se aceitarem se desligar da Safap. As dificuldades financeiras se escancaram também de modos inesperados: o Juan Aurich teve o estádio interditado por não conseguir pagar as taxas de limpeza pública. O Alianza Lima, que deve dois meses de salários para os jogadores e sete para os funcionários, viu todos eles fazerem uma fila da sopa, como indigentes, em protesto diante da sede do clube.

Uma solução drástica (não tão próxima)

Enquanto tudo desandava, o presidente da FPF Manuel Burga debandou para Suíça. Depois da repercussão negativa da “fuga”, a Federação justificou a viagem dizendo que ele se reunira com lideranças da FIFA, atrás de legitimidade para reestruturar o campeonato com poderes absolutos. Entre as medidas estaria o rebaixamento imediato de todos os clubes devedores, mantendo no futuro o descenso automático para quem não estiver com as contas em dia. Como Burga é mal visto pelos presidentes de clubes, a tendência é que haja uma eleição para definir o coordenador da renovação. O nome mais forte, curiosamente, é o do uruguaio Sergio Markarián, técnico da seleção nacional. Poucos discordam que uma fiscalização séria é o caminho para evitar que outra bola de neve dessas role pelas encostas dos Andes peruanos. A grande questão, quando se fala em rebaixamento, é definir em que termos isso seria feito. Hoje, usar apenas o termo “devedores” significaria rebaixar praticamente toda a primeira divisão.

Maurício Brum (as fotos são do El Comercio)

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16 Respostas a Destruímos seu campeonato em uma semana

  1. Balejos diz:

    Excelente texto! Aliás, mais um entre outros tantos da turma do Impedimento.
    Saudações.

  2. daroit diz:

    cacete, que tendéu. e os peruanos na libertadores tão jogando com que jogadores?

  3. Bruno C. S. diz:

    Excelente matéria!

  4. CA-GA-LHOS! Que furdunço dos diabos. E o pior é pensar que, da forma como vão as coisas, não se vê outra opção que não ver alguns muitos clubes peruanos fechando as portas. E o futebol deles até deu uma melhorada nestes tempos.

    P.S.: San Martin de PORRES. Até já imaginei um trapo sensacional para uma Impedcopa… rs

  5. O texto conta bem todos os aspectos que rondam essa crise no futebol peruano. O que me irrita é que os jogadores não recebem salário por meses, fazem greve geral, como ocorreu no início da temporada europeia na Espanha e na Itália, e eles é que são demitidos? Deveriam demitir os dirigentes, isso sim!

  6. gilson diz:

    discordo que “peru no buraco” seja mau trocadilho. Em todo caso, é certo que o calendário maia estava se referindo exatamente a essa passagem nas previsões sobre 2012

  7. #6

    Verdade, Gilson. Grande trocadalho do carilho esse. hehehehehehe

  8. arbo diz:

    belo trabalho de ELUCIDAÇÃO, brum (ainda q tu tivesse sido sempre bem claro anteriormente, mas faria bem, como faz, esse APANHADO. no próximo capítulo sugiro um adendo a esse belo post).

    E agora, a la tiburón capitalista: por que o Grêmio não contrata um belo de um jogador peruano desses?

  9. Guilherme diz:

    Nada pode ser mais lamentável que isso: http://i.picasion.com/pic50/4502358244d34e566ecbb573cf19999c.gif

    Fora Odone.

  10. gervásio artigas diz:

    o estranho é que esses caras aqui só hoje, depois que apareceu aqui no impeidmento, deram importancia:
    http://trivela.uol.com.br/coluna/america-do-sul/uma-lastima?comentario_enviado&c=1125890

    impedicorp, abre o olho!

  11. Alexsander diz:

    Essa lei das planilhas é o exemplo perfeito da Lei criada com boas intenções mas que acaba saindo pela culatra. Seria como implantar no Brasil um salário mínimo de R$ 2000 mensais: apesar da boa intenção de “melhorar a vida do trabalhador”, este canetaço simplesmente causaria a maior onda de demissão em massa da história.

  12. #2: por enquanto, os titulares ainda têm jogado pela Libertadores. Eles costumam fazer isso, ano passado o Universitario entrou em greve e mesmo assim a equipe principal atuava na Sul-Americana.

    #6: sobre o trocadilho, é INEVITÁVEL. Mas em respeito aos AMIGOS PERUANOS eu sempre vou dizer que eles são feios.

    #10: jamais nos matarão (ns). De resto, ninguém coloca mais o Peru na boca do povo (olha só) do que o Impedimento: http://impedimento.org/category/nacionais/peru/

  13. gervásio artigas diz:

    # 12
    os playstation-championsleguanos acusaram o golpe!

    hauhauahuahuahauhauhau

  14. douglasceconello diz:

    Tudo isto nos leva a crer que o Peru dá origem a jogadores fenomenais. Só isto para explicar a campanha da seleção nacional na última Copa América.

    Também por isso, um dos jogos que mais torci nos últimos tempos foi aquele Vasco x Universitario, na Sul-Americana do ano passado.

  15. Pingback: Ceviches, empanadas e uma linha de passe sensacional | impedimento.org

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