Reduzido a cinzas

Havia tempos que não víamos tantas cinzas numa quarta-feira pós-carnaval. Atual vice-campeão continental, o Peñarol entrou em campo na noite desta terça-feira otimista e pressionado por uma vitória contra o Atlético Nacional de Medellín. A torcida chegou cedo ao Centenário e, no rádio, só se falava na necessidade de uma vitória para recuperar os pontos perdidos em Mendoza, na primeira rodada do grupo 8, quando o carbonero perdeu por 1×0 diante do Godoy Cruz mesmo sendo amplamente superior no primeiro tempo. Era a chance de ganhar e provar que 2011 não havia sido um delírio coletivo. Mas o Nacional colombiano queimou o carvão em fogo alto desde o início do jogo e deixou a fornalha acesa até o final.

Sob o sol do final da tarde de Montevidéu, mais para outono do que para alto verão, os carboneros foram ao Centenário tranquilos. Se antevessem a tragédia que estava por vir, teriam deixado o mate e os trapos em casa. Na tribuna Olimpica, uma das faixas dizia, profeticamente, SOS MI ENFERMEDAD. No setor Colombes, um trapo trazia a frase SOLO ENTENDE MÍ LOCURA EL QUE COMPARTE MÍ PASIÓN. Mas era na barra Amsterdam, a mais animada, que a loucura carbonera era traduzida nos trapos mais apaixonados: POBRES LOS QUE NO LO SIENTEN, MI VICIO + GRANDE, UNA PASIÓN ANORMAL. Mas, ontem, não havia pasión y locura capaz de parar o Nacional de Medellín. Líder na Colômbia, com três vitórias em quatro jogos, e duas vitórias surpreendentes na Libertadores, os verdolagas jogam o fino da bola. Pela Liga Postobón, o time titular de Medellín jogou duas partidas e fez oito gols. Pela Libertadores, são duas partidas: a vitória consistente por dois gols contra a Universidad de Chile, equipe que, até ontem à noite, era a sensação do continente, e a goleada de quatro tentos ante o Peñarol.

Nessas quatro partidas, o Nacional NÃO LEVOU NENHUM GOL. Na temporada, foram três gols tomados com o time reserva. O time titular, no entanto, segue invicto (somando time titular e reserva, o saldo vergolaga no ano é de 17 gols a favor e apenas 3 contra). Os números, talvez, indiquem o ataque como destaque da equipe do técnico Santiago Escobar. No entanto, pelo o que se viu no Centenário, o Nacional não parece uma equipe excessivamente ofensiva. Os gols saem ao natural, como eventos inevitáveis da natureza. É uma equipe com excelente saída de bola, marcação correta e toques verticais em direção ao gol adversário, mas não se vê nenhuma correria desnecessária.

O Peñarol chegou a desafiar as leis da natureza no início de jogo. Foram oito minutos de intensa marcação no campo do adversário. Os ótimos volantes Valoy, Mejía e Córdoba tinham dificuldades para avançar. No lado aurinegro, o aguardado Rodrigo Mora, voltando de lesão, incomodava e partia para cima. Mas foram apenas oito minutos. O Nacional aproveitou uma saída de bola defeituosa e Macnelly Torres deixou Córdoba em condições de deslocar Carini com um toque em curva inapropriado para o jogador mediano. A abertura do placar serviu para mostrar que toda torcida é igual. A aclamada pasión carbonera sucumbiu à corneta indiscriminada nas tribunas. Claro, havia a Barra Amsterdam cantando de tempos em tempos, mas o torcedor da tribuna Olímpica preferiu LA CONCHA DE TU MADRE e LA PUTA QUE TE PARIÓ ao incentivo.

Mejía (o camisa 13), Valoy (21) e Torres (10) colocaram o Centenário inteiro debaixo do braço e trocavam passes na meia cancha como se aguardassem o sol sair para deixar a canastra de lado e voltar à praia. Aos 24 minutos, Dorlan Pabón, a nova revelação do futebol sulamericano, recebeu um belo lançamento, ganhou na corrida pela centésima vez sobre a zaga carbonera e colocou sobre Carini. A bola bateu no poste. Aos 42, Pabón deu um pataço da intermediária que passou raspando no poste. O Peñarol deu um ou dois bons chutes no primeiro tempo, mas a incapacidade do time uruguaio de trocar dois passes ou fazer uma jogada que fizesse algum sentido era torturante. Nada saia do lado direito, onde Lolo Estoyanoff fazia péssima partida. Mora jogava sozinho, abandonado pela decadência de Marcelo Zelayeta, 33 anos, o centroavante que tem quatro escudettos pela Juventus e nada do futebol de outrora.

Foi um belo dia para um massacre carbonero.

No intervalo, após dois panchos, um torcedor atrás de mim recebeu o Nacional com as seguintes palavras: DORLAN PABÓN LA PUTA QUE TE PARIÓ! Havia uma sensação de que o segundo tempo não tinha como ser pior que o primeiro. Valoy, de excelente primeiro tempo, saiu de campo machucado. Além disso, o Peñarol, e o povo uruguaio em geral, tem tradição na própria recuperação na base da força de vontade. Mas Pabón respondeu ao torcedor em três minutos e confirmou que não há nada que não possa piorar. O garoto velocista passou pela zaga carbonera como um raio e cruzou para Mosquera perder de forma inacreditável frente a Carini. A bola bateu no travessão e voltou para Mosquera, que perdeu de novo. Um minuto depois, Pabón foi lançado pelo mesmo lado do campo, desviou de cabeça para Córdoba, que anotou o segundo.

A torcida encarou o golpe quieta – assim como o time. Gregorio Pérez trocou todo o lado direito do Peñarol (Alvez por João Pedro e Estoyanoff por Santiago Silva) e o show de horrores seguia o mesmo. Não havia um cruzamento correto, uma troca de passes interessante. Zelayeta errou absolutamente tudo, o pancho esfriou e a maionese se deixou estragar. Para coroar o momento, o Nacional trocou dois passes verticais e Macnelly Torres lançou Pabón, que tocou na saída de Carini para marcar o terceiro. Imediatamente, os torcedores começaram a deixar o Centenário. E passaram a elogiar o adversário: “Que toque tienem…”, resumiu um dos hinchas atrás de mim.

A tragédia estava consolidada, mas um torcedor, por um instante, ainda achou uma ponta de esperança. “Cinco minutos más. Se no hicieren gol, nos vamos”, disse. O companheiro de arquibancada retrucou: “Gol? Que gol?”. A ficha caiu e ambos deixaram o estádio imediatamente. A Barra Amsterdam, comprovando que são movidos à locura, se pôs a cantar como não havia feito ainda. Aguiar, outro de atuação lamentável, atendeu o apelo da torcida com um chute ridículo que quase foi à lateral. Maxi Perez entrou no lugar de Mora e resolveu jogar como os uruguaios costumam fazer. Correu, lutou e foi ovacionado pela torcida. Mas quem jogou de verdade foi Macnelly Torres. Aos 33, distribuiu três ou quatro passes lindos até que Dorlan Pabón recebeu na entrada da área e guardou o quarto no cantinho.

Foi então que a hinchada manya ACORDOU DE VEZ. A barra não parou de cantar até o final do jogo, num espetáculo surreal de apoio a uma das piores partidas que o Peñarol jogou em casa nas suas milhares de passagens pela Copa Libertadores. Um torcedor notou meu estranho comportamento e, entrou uma anotação e outra perguntou: “És periodista o algo?”. “Si, soy periodista de Brasil”, respondi. Não sei se por simpatia ou por ironia diante do meu imenso pé frio, ele disse “Obrigado”, em português mesmo. Que bom que nem ele nem ninguém notou a imagem do COLOMBIANO Valderrama no meu peito, impresso no manto dourado do Impedimento.

Carlos Amarilla decretou o fim da cremação carbonera e a equipe foi APLAUDIDA.

No carro, ouvindo a rádio Carve, só se falava na maneira como o Peñarol perdeu. Comentou-se a conveniência de manter Gregorio Pérez no cargo e outras delongas. Se falou muito pouco do Nacional. Era como se o Peñarol tivesse perdido para ele mesmo, como se, com um pouquinho a mais de GANAS, o manya teria condições de fazer frente à equipe de Medellín. Prova de que, tanto na arquibancada quanto no rádio, o futebol é igual em todo lugar: só se sabe olhar para o próprio umbigo. Esqueceram que havia um time – um grande time – do outro lado de campo.

Toco y me voy desde Montevideo,

Alexandre de Santi

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35 Respostas a Reduzido a cinzas

  1. Mateus Reck diz:

    Bah… vi o jogo pelas linhas escritas.
    Show de bola.
    P.S.: Ando com a sina de ser o primeiro a comentar….

  2. Cícero diz:

    esse time do Atlético Medelín PARECE ser muito bom.

    Acompanhei um pouco do jogo do Peñarol contra o Godoy Cruz, achei que o Peñarol teve muito azar e merecia ter ganho. Não assisti ao jogo contra o Medellín, e pelo que eu vi contra o Godoy eu achava que eles dariam algum trabalho pro time colombiano.
    Nunca apostaria nessa sacola.

    Temos um candidato a título senhores.

  3. Chico Luz diz:

    Não que o Sosa fosse o melhor arqueiro do mundo. Mas, puta merda, como o Carini é ruim e azarado. Aquele braço de JOÃO GABRIEL no primeiro gol denuncia a ASA NEGRA desse podre.

  4. Mateus Reck diz:

    Pois é… também achei meio “jacaré” esse Carini…

    Pelo menos dois dos quatro dava pra ter evitado.

    Contudo, não consigo ainda elevar la equipo de Medellin ao status de favorito…

  5. O Atlético Nacional tá jogando com o Manual Libertadores embaixo do braço, exceto apenas que se esqueceu das partes onde tem que se fazer de morto pra não ficar escalpo premiado no mata-mata… hahaha

  6. gilson diz:

    Pintou o vicecampeão hein? Peñarol perdeu as duas primeiras, se passar vai ser osso.

  7. douglasceconello diz:

    Belo relato, Santi!

    Na primeira partida, contra La U, achei que a boa atuação do Nacional havia sido fundamentada na base do AGUANTE! por jogar no Atanasio Girardot lotado, mas ontem eles jogaram exatamente da mesma forma: sem se expor e em alta velocidade.

    Dorlan Pabón é candidato a ser um dos nomes da Libertadores. Peguem aquele PEREA, ex-Grêmio e atual CRUZ AZUL, acrescentem FUTEBOL e temos Pabón.

  8. Ike Ramirez diz:

    Esse Torres joga demais

  9. Rudi diz:

    Não digo candidato a título, mas os colombianos certamente estarão entre os oito…

    E aí amigos… é muito mais coração do que qualquer outra coisa…

  10. Cícero diz:

    #9

    levando em conta a maldição do time que sempre joga bem a primeira fase, cai nas fases finais, acho que não passam das quartas.

  11. Cícero diz:

    ALO IMPEDIMENTO.

    A NARRAÇÃO DEFINITIVA:

  12. Cícero diz:

    #13

    eu perdi! Nunca coloco os vídeos que nem gente.

  13. Vi uns pedaço de jogo. ASSUSTADOR o toque de bola e o jeito vertical com que esse time joga. Nem parece colombiano, que adora uma firula e um drible a mais.

    Se mantiver esse nível, é forte candidato. Só perde para o seu sangue colombiano e o salto-alto que sempre aparece em equipes que destroem na primeira fase.

  14. Mac diz:

    Só uma coisa a dizer: Macnelly Torres – Que BÁRBARO !!!!!

  15. Guilherme diz:

    Um time que destrói o Universidad do Chile e o Nacional nas primeiras duas rodadas promete. Quem sabe chegue tão longe quanto àquele time do Aristizabal que jogou contra o Grêmio.

  16. Cesar Cardoso diz:

    #5: exatamente. O Atlético Nacional tá flanando demais nessa primeira fase. Só lembro das últimas copas de Cruzeiro e Vélez.

    Mas que seria interessante para o futebol sulamericano um time colombiano que não jogue aquele futebol foquinha-de-circo tão típico dos cafeteiros campeão, ah isso seria.

  17. Anônimo diz:

    Que “arrodião” tomou o Peñarol!!!!!

  18. Prestes diz:

    Grande Santi!

    Ches, e o Peñarol agora sai para pegar La U!

  19. Carlos diz:

    #12
    Que coisa mais insana…

    Não vi o jogo, mas fudeu pro Peñarol, pelo jeito.

    E LA U não é a mesma do ano passado, certo? não vi nenhum jogo deles, mas não perderam varios jogadores???

  20. col diz:

    Foi muito feia a derrota. Interessante esse Atletico hein?

  21. boato diz:

    blogdopaulinho.wordpress.com/2012/02/22/contratacao-de-luxemburgo-pelo-gremio-foi-acao-entre-amigos/

  22. Pingback: O carbonicídio na narração colombiana | impedimento.org

  23. Kicha diz:

    Por um dia não vimos o jogo in loco, mas pude conferir na Fox Sports. Relato perfeito, o Nacional patrolou os uruguaios (o que rendeu uma divertida flauta no El Fogón, onde almoçamos hoje). Taí um time que eu não gostaria de enfrentar tão cedo, me impressionei com a velocidade do ataque colombiano.

  24. Vinicius Franco diz:

    Atlético Nacional jogando o melhor futebol da Libertadores na 1ª fase. O que não o credencia a nada (vide Cruzeiro-2011).

    O Peñarol é visivelmente mais fraco do que era ano passado, mas ainda acho que vai brigar de igual pra igual com La U pela 2ª vaga do grupo – e aí não dá pra arriscar quem passa. Mas qualquer um dos dois continua candidato ao título – com pequena vantagem para os chilenos.

    E o Carini, hein? Começou a carreira dando pinta de que seria um dos melhores goleiros do mundo, foi para a Itália com todo aquele cartaz, passou anos esquentando o banco da Juventus e voltou irreconhecível. Acho que saiu cedo demais daqui e foi pros times errados lá. Era óbvio que ele não seria titular na Juventus, com o Van der Sar e seus 6.508 anos de seleção holandesa e 4.583 minutos sem tomar gol em jogos da Champions League contra times que vestem azul. E que não seria titular na Inter, com Francesco Toldo e seus 30 anos de casa e Júlio Cesar. Aí ficou lá, treinando errado, sendo emprestado pra times de 18ª categoria e desaprendendo a jogar futebol. Desperdiçou todo o talento e a capacidade que tinha. É claro que a culpa não deve ter sido dele, mas sim de algum dirigente, empresário ou dirigente-empresário que cresceu os olhos quando a grana apareceu. Mas que é uma pena, é.

  25. Atlético Nacional tem um belo time e está jogando muita bola (o que não deixa de ser surpreendente para uma equipe montada quase toda na virada do ano, e que deveria estar penando um tanto para se entrosar). Vai longe, mas não pode se aproximar da final. Devemos honrar a tradição de que quem começa se EXIBINDO demais na primeira fase acaba caindo antes do que poderia na Libertadores.

  26. douglasceconello diz:

    Também acho que o MAL DE LINIERS pode vitimar o Atlético Nacional, mas não esqueçam de que os colombianos são capazes de subverter os mais INFLEXÍVEIS paradigmas.

  27. col diz:

    Os colombianos tem a MANDINGA para superar esses mau-olhados.

  28. marlon diz:

    GOLYGOLYGOYGOLYGOLY Y GOL Y GOL GOLAAAAAAZO

    bvkjvdkvkdhfdkjfhjd. certo que farei igual aqui nas Ramblas.

  29. Norteña diz:

    Nada sobre o Grenal, impedimento colorado!!!!

  30. Ótimo aprendizado do último parágrafo.

    Pelo visto, lá como aqui os times perdem sempre por seus erros, nunca por mérito do outro.

  31. LH diz:

    No dia seguinte ao jogo, perguntei ao dono de uma banca de jornais no centro de Montevidéu “que havia pasado con el carbonero”… Ele fez uma careta resignada, resmungou qualquer coisa e emendou “Vamo salir campeón” e tascou uma bitoca molhada na térmica do mate onde repousava um adesivo com o escudo do clube.
    Vai saber…
    Mas parece que a mística não tá vestindo negro y oro nessa Liber. E pelo que vi do jogo, com esse time, nesse grupo, só na base da locura pra acreditar mesmo.

  32. Daniel - jlle diz:

    Pq tu não te mata Carini?????
    Que foi o segundo gol???
    Medonho!!!

  33. Pingback: O Mal de Liniers a favor de Liniers | impedimento.org

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