El sueño es ser…un Martino

Mamita querida
ganaré dinero,
seré un Baldonedo, un Martino…
(O tango segue.)

No ano de 1941, uma chuvarada banhou por horas a cidade de Rosario, obrigou os habitantes da cidade a deixarem as ruas e impediu que o Rosario Central entrasse em campo naquela tarde – a água, acumulada no terreno de jogo, fez com que a partida fosse adiada. O mencionado temporal, por mais absurdo que possa soar, foi o fato responsável pela maior transformação na vida e na carreira de Rinaldo Martino, então um talentoso jovem de 20 anos, que seria visto mais tarde como uma das maiores lendas do futebol argentino. Isto porque, como se havia planejado, naquela tarde os dirigentes do Club Atlético San Lorenzo de Almagro presentes na cidade sacramentariam a contratação de Waldino “Torito” Aguirre, entreala izquierdo do Central. Mas o aguaceiro, entretanto, forçou uma inesperada mudança de planos.

Quis o destino que a cancha do Newell’s Old Boys suportasse melhor os efeitos do temporal e que o seu jogo, marcado também para a data daquele dilúvio, de fato ocorresse. Mas não foi nenhum jogador do rubro-negro rosarino que impressionou os dirigentes do Cuervo: Rinaldo Martino, destaque do pequeno Club Belgrano de Rosario, o adversário de então, acabou contratado. Os cartolas levaram a Rosario uma maleta com quarenta mil pesos, o valor estipulado para a contratação de Aguirre. Por Martino, deixaram apenas treze mil. Compraram – e disso nem desconfiaram na época – o terceiro maior artilheiro da história do San Lorenzo de Almagro. O meio-campista (hoje, contam os que o viram jogar, Martino atuaria quase como um enganche) deixava Rosario para não mais voltar. Em Buenos Aires, descobriria a glória do futebol portenho dos anos 1940 e as tentações que a vida na capital poderia oferecer.

Dois estrangeiros determinaram a sorte de Rinaldo Martino logo no início da sua trajetória pelo Viejo Gasómetro: o técnico húngaro Emérico Hirschl, que confiou a um jovem sem qualquer experiência na primeira divisão um posto na equipe titular, e o companheiro de ataque, Isidro Lángara – um espanhol que combateu a favor dos republicanos na Guerra Civil do seu país e que se exilou na Argentina após a vitória franquista. Lángara possui até hoje a maior média de gols da história da instituição; foram 111 em 130 partidas (0,85 por jogo), entre 1939 e 1942. A despedida do atacante espanhol, com quem partilhou gols e assistências nas primeiras temporadas, não freou a evolução de Martino. Logo chegaram os outros dois nomes que, com ele, formariam o ataque mais comentado de Buenos Aires naqueles dias: René Pontoni, Armando Farro e Rinaldo Martino, “el Terceto de Oro”.

A fama e os gols o empurraram para a noite bonaerense; apaixonado por tangos, buscou o som do bandoneón e logo fez amigos músicos. A atmosfera tanguera poderia ser encontrada na sua plenitude nos cabarets, onde a presença do jogador era frequente. Ali conheceu Aníbal Troilo, músico e compositor argentino que gravou um par de vezes com o gênio Astor Piazzolla. Quando Troilo encontrava Martino e seus companheiros de San Lorenzo nas madrugadas, surgia o recado: “o que fazem aqui? Tratem de ir para casa, ou no domingo não vão conseguir nem levantar as pernas”. Mais do que levantar as pernas, “el Negro” Martino voava a cada domingo. Levou, com Farro e Pontoni, o clube azulgrana ao título nacional de 1946, quando o San Lorenzo completava treze longos anos sem conquistas. Foram cento e sessenta e quatro gols em oito temporadas. Havia um segredo para tanto? “El fútbol era simple porque lo habíamos aprendido en la calle, jugando contra la pared; con pelotas de trapo o de goma, hasta con piedras jugábamos”, explicou Martino, já nos seus últimos anos.

Houve um momento – importante como fora aquele temporal rosarino – em que Buenos Aires, com os seus bares e potreiros, pareceu insuficiente para o afã do artilheiro boêmio. Os anseios maiores talvez tenham surgidos às vésperas da excursão para a Europa que o San Lorenzo organizou para os últimos meses de 1946 e os primeiros do ano seguinte. Mais do que conhecer Madrid, Barcelona, Porto e Lisboa, os jogadores enfrentariam fortes equipes europeias – tratava-se de um teste para aquela que, por ser justamente a última campeã, era vista como a melhor equipe da Argentina. A verdade é que o San Lorenzo presenteou o Velho Continente com vistosas exibições de futebol e uma dezena de gols. Em dez jogos, foram cinco vitórias, quatro empates e uma derrota; apenas o Real Madrid pôde superar a equipe de Boedo. O “Tercero de Oro” brilhou ainda mais do que conseguira no torneio nacional: Martino marcou dezessete gols, Pontoni doze e Farro, cinco. Somente o primeiro, no entanto, acabou contratado por uma equipe europeia.

Rinaldo Martino, aquele que, poucos anos antes, fora descoberto pela água e pela sorte, era uma das grandes novidades da Juventus italiana. Suportou o frio com gols que credenciaram a Juve para o título nacional daquele ano e que serviram até mesmo para uma impensada nacionalização – de qualquer forma, Martino vestiu a camiseta da Squadra Azurra apenas em uma ocasião. Mesmo em alta no futebol europeu, “el Negro” forjou uma explicação para desistir do sonho gelado e regressar à cidade que aparecia com força na sua nostalgia. A desculpa oficial, anunciada após a volta, tornou-se folclórica: “em Turim não havia carreiras de cavalos”. Como se fosse pouco, agregou outra polêmica ao retorno – assinou com o Boca Juniors, um dos maiores rivais do San Lorenzo, clube no qual já era uma lenda. O quadro azul y oro de La Ribera trouxe Martino após o período de inscrições da temporada de 1950, de modo que a solução foi ceder o jogador por empréstimo ao Nacional uruguaio. Em Montevidéu, como em Rosario, Buenos Aires e Turim, Martino se portou como se lá tivesse passado uma vida inteira; saiu campeão imediatamente e foi louvado pela imprensa local e pela parcialidade tricolor.

O ano seguinte marcava o maior desafio da carreira: triunfar outra vez na Argentina, mas desta vez com a jaqueta do Boca Juniors. Enfim em condições legais de atuar, Martino pouco fez na Bombonera. Disputou pouco mais de uma dezena de encontros e marcou três gols. Um deles, ironicamente, contra o San Lorenzo – comemorado como se fosse um ato de libertação. Aos trinta e um anos, o rendimento insuficiente no clube mais popular do país marcava o ocaso da sua carreira. Ainda voltaria a Montevidéu para erguer outra taça com a camisa do Nacional e encerrar a trajetória futebolística no Cerro, mas as raízes passionais estavam todas na capital argentina. Na sua última temporada na Villa del Cerro, atravessava o Rio da Prata apenas na véspera do encontro; a semana era vivida em Buenos Aires, como Martino sempre quis. Perto das carreiras do hipódromo e do choro do bandoneón de Aníbal Troilo. Anos mais tarde, Martino abriu a “Caño 14”, que se tornaria uma das casas de tango mais respeitadas da cidade.

Foram muitos os instantes que poderiam figurar como encerramento para um texto sobre Rinaldo Martino. Há uma tarde, entretanto, que talvez diga um pouco mais sobre quem foi “el Negro”. No dia de dezessete de agosto de 1941, ainda na primeira temporada de Martino no clube, o San Lorenzo perdia para o Platense por três a zero em Boedo. Em quinze minutos de uma atuação infernal, Martino empatou a partida com três gols. Nos últimos momentos, em outra jogada individual, foi derrubado na área. O Gasómetro inteiro gritou pelo nome de Martino, que se recusou a bater o pênalti. Deixou a pelota para o espanhol Lángara, que seria o cobrador oficial. O arqueiro Julio Cozzi voou no canto certo e defendeu a penalidade. Assim era Martino: genial, errante e imperfeito, como que desviando da glória no exato instante em que a encontrava. Digna de um tango, a história de Rinaldo Martino tem fim em um hospital de Buenos Aires, em novembro de 2000.

Iuri Müller

Publicado em Colunas, Pela América. ligação permanente.

15 Respostas a El sueño es ser…un Martino

  1. Guto diz:

    Esse Impedimento…sempre surpreendendo pela crescente qualidade.

  2. Roger diz:

    O Iuri eu não vou elogiar mais.

    Sobre Martino, parece que somente no rival Boca não teve uma passagem de destaque, correto? Freud deve saber exlicar…
    Essas fotos e histórias dos craques do passado são uma verdadeira relíquia.
    Se poderia editar um belíssimo livro do Impedimento somente com essas reportagens.
    Acho que a galera deveria fazer aquele esquema de financiamento coletivo e investir nisso.

  3. Te lavaste, chino.
    Grande ideia de série de reportagem, grande texto.

  4. Caio Brandão Costa diz:

    Convém lembrar que a Juventus, embora inegavelmente já fosse uma das principais equipes italianas, não era campeã desde 1935. Antes do Martino chegar, os cinco títulos anteriores haviam sido emendados pelo rival Torino.

    A conta de scudetti em Turim estava Juve 7 x 6 Toro, e poderia ter sido igualada se um provável hexa (algo ainda inédito na Bota) grená não fosse impedido por Superga.

  5. Sganzerla diz:

    Apoio muito a ideia de fazer um livro do Impedimento.
    Isto é a história, meus amigos. A HISTÓRIA!

    Parabéns, de novo, Iuri!

  6. Frank diz:

    Muito interessante essa série… parabéns ao Iuri e ao Maurício pelos textos…

    Eu sou um dos que se dispõe a colaborar para que saia um livro com as melhores crônicas do Impedimento…

  7. Sobre as constantes enchentes na “Chicago Argentina”, os rosarinos são apodados de come-gatos pelos viventes de outras cidades argentinas, pois os felinos seriam uma forma de alimentar-se depois de perder tudo após os dilúvios…

  8. Chico Luz diz:

    esse site é demais. O Iuri eu não vou mais elogiar [2]

  9. gilson diz:

    [3]

  10. Ike Ramires diz:

    (4)

  11. Kadj Oman diz:

    I Copa América Alternativa, 26, 27 e 28 de janeiro de 2012, em Jesus María, Córdoba, Argentina: http://www.autonomosfc.com.br/caa2012

    Chega a ser quase um ultraje a nação impedimentense não ter 11 pra colocar pra jogar por lá.

    (desculpem o comentário completamente aleatório ao post)

  12. Pingback: El sueño es ser…un Boyé | impedimento.org

  13. Vini Araujo diz:

    Obrigado por existir, Impedimento!

    Belíssima série de reportagens, comandada por essas feras da crônica: Iuri e Maurício..
    Coisa linda

  14. Albina diz:

    ciao! thanks for that kind of information, it really help me a lot! thanks!!!.http://www.kitsucesso.com

  15. Amelly diz:

    this stuff is extraordinary thanks for sharing keep it up.http://www.divulgaemail.com

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