El sueño es ser… un Baldonedo

Mamita querida
ganaré dinero,
seré un Baldonedo…

O tango conta, ou canta, que depois de baterem à porta, depois de a voz do carteiro ter se feito ouvir, depois de o menino ansioso correr desapercebido e pisar no pobre cachorrinho branco, depois de ter gritado pela mãe, depois de ela ter estranhado a situação e se aproximado para ouvir o filho, o guri explicou sua comoção: havia sido chamado para atuar no clube local. O tango conta, mas será melhor dizermos que canta, como um menino pranteou alegremente porque ganharia dinheiro jogando futebol. Que lá na cancha, num domingo desses, a torcida aplaudiria seus gols – e seu destino infalível seria a consagração. Ele desejava ser um Baldonedo, talvez um Martino ou um Boyé, pois por ali todos diziam que ele chutava melhor que o grande Bernabé. El sueño del pibe, o tango escrito por Reinaldo Yiso e musicado por Juan Puey, foi lançado em 1945. Naquele mesmo ano, se fosse o próprio Baldonedo, o menino da música teria percorrido caminho oposto ao do sonho e deixaria seu time.

Emilio Baldonedo virou nome em muro. Ele jogou numa das melhores formações já montadas pelo Huracán. Quando o clube decidiu homenagear, em seu estádio, personagens relevantes de sua história, escolheu catorze deles para terem os nomes estampados no setor mais emblemático da cancha – aquele de onde se erguem as imponentes torres para hasteamento de bandeiras. A Platea Miravé, como é formalmente chamada, tem inscritos doze jogadores e dois presidentes. Baldonedo é o último nome à direita, quase escapando da área nobre para as arquibancadas do fundo do campo. Sua posição é uma ironia. O estádio que parece obrigar Emilio a se equilibrar numa das bordas, quase saindo dali, tem o nome do presidente que se indispôs com o jogador e o afastou daquela vizinhança: Tomás Adolfo Ducó. Baldonedo culpava Ducó pela sua não-liberação para defender a Argentina nos torneios sul-americanos do início dos anos 40. Em 1945, saiu do Globo amargurado e sem a intenção de voltar enquanto desse patadas num balão de couro. Foi defender o Newell’s em Rosario, onde atuou tantas vezes quanto há de dedos em uma mão, depois partiu para o México e encerrou a carreira.

O homem que nunca pôde tentar ser campeão da América havia se especializado em confrontos contra o Brasil. Cinco das suas seis partidas na seleção foram contra os brasileiros, que ainda vestiam o insípido branco e, sem saber muito bem o que queriam, levaram sete gols de Baldonedo, todos em 1940 – um número jamais repetido em tão pouco tempo por outro jogador. Naquela altura ele já era um dos goleadores mais valiosos de Buenos Aires, o que explicava sua presença em letras de tango (além da possibilidade de uma boa métrica) e sua indignação por não ter ido para o selecionado que venceu o Sul-Americano de 1941, nem o que tentou manter o título no ano seguinte. Baldonedo deixaria o Huracán entristecido por não ter igualado as conquistas da equipe que o havia arrebatado na infância. Entre 1920 e 1928, dos seus quatro aos seus doze anos de idade, precisamente na época que coincidiu com os últimos dias do amadorismo argentino e sua entrada na base, Emilio viu o Globo vencer quatro campeonatos e ser vice-campeão em outras duas ocasiões.

Os que tiveram a chance de testemunhar aquele time e compará-lo com a geração seguinte não duvidaram de que a esquadra já profissional do fim dos anos 30 era superior. Mas desta vez a taça resistiria às estantes do clube vermelho e branco. O Huracán de 1939 reunia no ataque o próprio Baldonedo e o também legendário Hermindo Masantonio, maior artilheiro da história do clube – outro dos catorze nomes em Miravé –, e marcaria quase cem gols em trinta e quatro rodadas. Foi uma equipe de três primeiros, nenhum deles representando a classificação final na tabela: foi a primeira a vencer os cinco grandes em um único turno do campeonato, a primeira colocada na metade inicial da competição e a primeira das cinco equipes do Huracán que acabariam vice-campeãs na era profissional. Os outros vices se distribuiriam em décadas cada vez mais aleatórias, adentrando o século vinte e um, enquanto nesse meio tempo somente um título se confirmaria, no arenoso 1973.

No entanto, para o Estudiantes de La Plata, para os audaciosos rosarinos Central e Newell’s, e até para nomes menos votados como o Argentinos Juniors e o Vélez Sarsfield, essas taças não se recusaram a ser erguidas. A visão do Huracán como o “sexto grande” do país, algo palpável nos tempos de Baldonedo, caducou. E o fato de o time passar a ser rebaixado com frequência – em 1986, 1999, 2003 e 2011 – dilacerou os parâmetros de comparação com que a torcida sustentava os debates diante dos rivais. Cada queda teve sua dor singular. Ainda assim, é provável que nenhuma tenha sido tão traumática quanto a segunda, numa época em que a decepção ainda não era corriqueira e em que reinava a catatonia e ninguém conseguia entender como diabos o Huracán chegara ao ponto de contrair dívidas na ordem de vinte milhões de dólares sem ter montado grandes equipes. Naqueles finais de anos noventa, as fotografias de Emilio abraçando Masantonio perdiam sua forte tonalidade sépia e já eram recordações rachadas e desbotadas. Mesmo no tango de Reinaldo Yiso que eternizara o craque quemero, os mais jovens procuravam recriar a rima e trocavam o “Seré un Baldonedo” pelo anacrônico “Seré un Maradona”.

O declínio do Huracán se estendeu por toda a temporada. A campanha pífia se repetiu nos dois torneios curtos, dando tempo suficiente para que a imprensa montasse uma espécie de banco de conselhos com os velhos ídolos do clube, abrindo espaços periódicos para as declarações de um ou de outro sobre a atualidade do Globo. Aos 82 anos, Baldonedo era o mais idoso entre os ex-jogadores simbólicos consultados pelos jornais. Com os rancores antigos curados. “No hay nada que me duela más que el descenso de Huracán. Nosotros somos de primera”, repetiu ao longo da temporada. “Ustedes no saben cómo sufro cada vez que pierde Huracán. Hay veces en que prefiero no mirarlo”. Em 16 de maio de 1999, faltando seis rodadas para o fim do campeonato, um dos piores times do Huracán em todos os tempos já estava rebaixado matematicamente. Quinze dias mais tarde, Baldonedo faleceu. Virou nome em muro, lá no alto da cancha, de onde por estes dias deve estar preferindo não ver o Huracán se arrastar outra vez na B Nacional.

* * *

Ao longo do mês de janeiro, o Impedimento vai mergulhar no célebre tango de Reinaldo Yiso e Juan Puey, e recontar a história dos jogadores em quem o pibe sonhador se inspirava. Hoje, Emilio Baldonedo, do Huracán. Na sequência: Rinaldo Martino (San Lorenzo), Mario Boyé (Boca Juniors) e Bernabé Ferreyra (River Plate).

Maurício Brum

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14 Respostas a El sueño es ser… un Baldonedo

  1. vinicius diz:

    Meu time em Bs As. Grande Huracán. O Atlético Mineiro hermano.

    Comprei um linda camiseta vermelha do Huracán em novembro_11. Bordas das mangas e da gola são brancas. Kappa. Sem patrocínio.

    Lindaça!

    Ela se soma as outras camisetas de lá. Quilmes, Velez, Arg Jrs, Independiente, Racing, San lorenzo, Atlanta, Ferro e Platense.

  2. Tiago diz:

    Parece até coincidência, mas o juiz que roubou o título do Huracán em 2009 reapareceu depois de dois anos:

    http://www.canchallena.com/1439084-reaparecio-brazenas-y-cappa-pidio-que-lo-investiguen

    Apesar do roubo descarado que foi aquele jogo, duvido que voltem a investigar o caso depois de tanto tempo. Deixaram o juiz na geladeira até a poeira baixasse, e no fim tudo fica como está.

  3. FERN diz:

    eh sempre bom lembrar aos novatos que o football ñ começou na decada passada…
    grande huracán 5 vezes campeão

  4. Massa no texto linkado pelo Tiago é o trecho:
    Brazenas anuló mal un gol de cabeza de Eduardo Domínguez por un off side que no existió, avalado por el asistente Ricardo Casas, y luego ignoró la falta previa de Joaquín Larrivey a Gastón Monzón…
    Falta prévia ou tentativa de assassinato?

    Belo texto, grande história. E que se registre que dois desses gols de Baldonedo foram no velhíssimo Palestra, antes da reforma dos anos 60 que criou o estádio suspenso.

  5. Felipe (o catarina) diz:

    Esse tango é muito massa. A versão de Oswaldo Pugliese acho a melhor.

  6. Globo querido!

    Acabo de voltar, menos de 10 dias, da viagem a Buenos Aires que fiz só pra conhecer EL PALACIO Ducó. Que coisa linda, não há nada no mundo (não que eu conheça o mundo, mas duvido muito que haja) que se compare àquilo. Parque Patricios inteiro é lindo.

    Mas tem gente mais legal na história quemera que o Baldonedo.

  7. Diogo Terra diz:

    Essa polêmica do “sexto grande” não engloba (sem trocadilho aqui) apenas o Huracán. Newell’s, Central e Estudiantes também entram nessa reivindicação.

    Vélez? Não, não dá pra chamar de grande um time cuja torcida em pleno Amalfitani faz menos barulho que a do OLIMPO. Como disse o Antonio Serpa, único que se salva no Olé com a “El Contra”, sua coluna de humor às segundas-feiras, após o último Clausura: “Meia dúzia de buzinaços. O Vélez teria se sagrado campeão”.

  8. Pingback: El sueño es ser…un Martino | impedimento.org

  9. Roger diz:

    Acho que nem mesmo na Argentina o futebol atual renderia bons tangos.

    Como foi bela e romântica a adolescência desse esporte.

    Da mesma forma que esse texto do Maurício.

  10. Kadj Oman diz:

    I Copa América Alternativa, 26, 27 e 28 de janeiro de 2012, em Jesus María, Córdoba, Argentina: http://www.autonomosfc.com.br/caa2012

    Chega a ser quase um ultraje a nação impedimentense não ter 11 pra colocar pra jogar por lá.

    (desculpem o comentário completamente aleatório ao post)

  11. Pingback: El sueño es ser…un Boyé | impedimento.org

  12. arbo diz:

    de fato, o globo tem um charme. quero voltar a bs as pra conhecer seu estádio, o H do cHarme.

  13. Pingback: El sueño es ser… un Bernabé | impedimento.org

  14. Arieta diz:

    thanks for your nice sharing to us.http://www.listadeemail.org

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