Diário de um treinador (I)

(dia 1) A maior vantagem de se separar é o tamanho da mala. Nos outros três trabalhos, um deles em Portugal, foram quatro malas, cinco dias para montar tudo. Isso sem falar nos móveis, utensílios de cozinha, potes, necessáire e outras bobagens. Sem a Marisa, só trouxe uma mala para Caboclos. Deixei em casa mais da metade das minhas coisas, incluindo roupas, amores e escrúpulos.

Precisando trabalhar, se topa qualquer negócio. Tudo andava bem até o rebaixamento no Brasileirão e a pancadaria no vestiário lá em São Paulo. Não tinha mais jeito com o Nelcir. Ele não só não me ouvia, como começava a achar que eu conspirava com os jogadores contra ele. Romper esse casamento foi mais difícil que o outro – a Marisa me dava dores de cabeça e chifres; trabalhar com o Nelcir, pelo menos, me dava uma grana bem boa. Quando topei virar auxiliar do Nelcir, estava me dando bem como treinador lá em Santa Catarina; não custava tentar retomar de onde parei.

Passaram dezesseis anos, fiz uma faculdade, ganhei dois títulos, tive um filho e três mulheres. Quando comecei, era um guri que pegou a boca de técnico porque tinha duas placas no joelho e R$ 15 mil pendurados no clube – agora, pelo menos, eu sei comandar um treino. Além do mais, desisti de confiar em quem não merece, o que parece ser o mais importante nesse meio.

Vou de avião. Sei que o Guarani de Caboclos não tem como pagar, e nem vou cobrar deles. Mas eu que não vou aparecer lá com cara de 20 horas de viagem. Comprei também uma camisa de marca e uma calça social – nada de terno, senão vão me achar prepotente. Liguei para o Nelcir para desejar boa sorte, mas caiu na caixa de mensagem.

(dia 2)

O presidente do Guarani é muito gente boa – e honesto. Onde passei, os presidentes sempre diziam a mesma coisa: objetivo era ganhar o título, ou subir de divisão. Prometiam contrato de dois anos e te obrigavam a escalar o jogador X do empresário Y – que fatalmente, não jogava nada. Aí, o jogador X comprometia, éramos demitidos e vinha o treinador Z do empresário Y, que sempre colocava o jogador X no banco para agradar a torcida – e pagar a dívida com o empresário Y.

Aqui no Guarani, pelo menos, o cara diz a verdade. Os objetivos do ano são: não cair para a segunda divisão estadual e vender alguém. Um olho no time e outro nas notícias de clubes grandes; se temos um lateral que saiba cruzar e o favorito ao título não tem, é bola na lateral todo o jogo, para ver se dá negócio.

Tem 16 no plantel, um deles lesionado. Cinco atacantes e nenhum segundo volante. A folha fecha em R$ 60 mil e o Beto é quem ganha mais, mas duvido que seja só 15 – o cara passou por Grêmio, Palmeiras e Vasco. Tem 33 anos e só tá aqui porque ficou um ano e meio sem jogar, depois de ser pego no antidoping. Parece gente boa, mas todo mundo parece no primeiro dia.

Também conheci o Humberto, que é o investidor. Botou 300 mil no clube ano passado e conseguiu subir para a primeira divisão, mas só nove jogadores ficaram – todos os outros eram emprestados. Disse que vamos precisar de pelo menos mais seis caras, mas ele exigiu que fossem todos abaixo de 20 anos. Também pediu uma avaliação de uns cinco jogadores com mais de 25 que não tem futuro, para tentar mandar embora antes do início do campeonato.

Meu filho me ligou. Desejou boa sorte e contou que passou com 10 na prova de matemática. A mãe não quis falar – a pensão tá em dia, é só o que interessa. Achei um quarto e sala para ficar, só duas quadras do clube. Muito quente aqui.

(dia 3)

Consegui dormir três horas. Cinco da manhã já tomava café e tentava decidir o que fazer da vida numa cidade como Caboclos. Corri até as sete. Apresentação ao grupo às nove. Tomei um banho e botei a mesma roupa da viagem. E um perfume, para fingir que foi lavada.

Todo mundo discursou, até o investidor e um conselheiro que parece ser influente. Tem uma rede de ferragens na região e apareceu de terno e gravata. Eu falei rapidinho, 15 minutos. Muito trabalho, matar um leão por dia, comer a grama, aquelas coisas. É só gurizada, praticamente. O Beto me deu um longo abraço e disse que me conhecia dos tempos de Grêmio. Nunca passei pelo Grêmio, e quando era auxiliar e enfrentei o Grêmio, nenhum jogador me cumprimentava. Não gostei, mas imagino que seja para manter o respeito.

Amanhã chegam mais dois da comissão: o preparador Joaquim e o treinador de goleiros, Hélcio. O Hélcio ficou uns 20 anos no Paraná e estava há quase um ano desempregado, desde que descobriram que era homossexual. Acho uma tremenda bobagem. O cara trabalhou 20 anos num time e do nada, vira incompetente? O que ele faz na cama pouco me importa. Ele vem com o companheiro, mais de 5 anos juntos. É um cara muito dedicado e formou até goleiro de Seleção Brasileira.

O Joaquim, confesso, foi minha quarta opção. Primeiro liguei pro Héctor, um argentino safado muito meu amigo, que tava em um time ruim lá. Só que o cara é safado, pediu mais do que eu ganho para assinar. Depois, o Mário, que era o mais competente. Planejador, tem planilha para tudo, um auxiliar que trabalha com laptop em campo. Só que o Mário recém assinou com um time das arábias. Fiquei chateado mesmo porque o Rubens não quis. O cara desempregado, com quatro filhos para criar em Passo Fundo, só foi atender o telefone na quinta vez que liguei. Disse que não pegaria pois preferia usar o tempo para estudar. Quem é que estuda, em Passo Fundo, com cinco bocas famintas na mesa?

O Quim topou na hora. É o cara mais boa praça, divertido, tem sempre uma piada, descontrai o trabalho. Só que não sabe planejar porra nenhuma. É o cara que manda a gurizada correr 10 mil metros na sexta com jogo no sábado de manhã. Várias vezes nosso time se ferrou com as decisões dele. Porém, era o cara possível. Desde que eu consiga mandar nele, tudo bem.

Amanhã vou fazer um coletivo logo depois do aquecimento, para ver quem não serve. Um empresário amigo meu vai estar lá. Tem uns times precisando de gente para fechar o grupo. Ele também vai me passar uns seis nomes. Pelo menos uns três têm que vir.

(dia 4)

Hoje consegui dormir cinco horas. Deve ter sido o chá.

O coletivo foi um horror. Os dois times jogaram com dois meias e dois volantes, mas quase ninguém acertava passes. Tem um atacante rápido, o Uílquinson, que deve ser o melhor. O Beto, que eu sempre conheci como lateral, jogou na zaga e até foi bem, mas não corre mais que 10 metros por jogo. Só pra sacanear, botei o Uílquinson no time reserva em cima dele no segundo tempo do coletivo. Saíram uns dois gols por ali.

Joaquim e Hélcio chegaram hoje, conversamos bastante durante os treinos. O empresário aquele só apareceu no segundo tempo do coletivo. Queria levar o Uílquinson pra segunda divisão paulista. Mandei ele tomar no cu. Aí ele disse que tinha uns três caras pelos quais poderia fazer uma proposta. Eu quero me livrar de um lateral direito e de dois atacantes. Espero que role. Ele me ofereceu dois segundos volantes, ambos recém saídos das bases do Corinthians e do Palmeiras. Vou contratar os dois, pelo dobro da ajuda de custo que recebiam, o que deve dar 1,6 mil. O clube não vai pagar, mas eles vão ter vitrine.

Gostei do goleiro do time reserva, Roberval. Fala grosso, xinga os caras, e só tem 20 anos. Capaz de ser titular. O Alisson, que é um dos que ficaram, me chamou pra conversar no banheiro. Disse que não receberam a grana combinada pelo acesso, 10 mil para cada um. Fiz os cálculos e chamei o Humberto pra almoçar.

O Humberto me contou que sim, prometeu 10 mil para cada um – mas isso daria 220 mil para todo o grupo, quase toda a grana que ele investiu no clube no ano. Não teria, é claro, como pagar. Também contou que quer pagar 5 mil para os que ficaram no clube até o início do campeonato e os outros 5 mil até o fim do ano. “Então chama o presidente e pede para ele contar isso”, eu disse. Quero saber com quem eu posso contar antes do primeiro jogo. Senão, vai ser foda.

 

Hoje saiu uma notinha num grande jornal sobre a nossa chegada no Guarani. Nelcir me ligou. Me desejou sorte. Parece que vai para Portugal em junho, já tem um pré-acerto com o Belenenses, mas quer pegar um clube grande pra jogar o Estadual. Se ele for, não sei se não vou.

 

Até a vitória,
Luís Felipe dos Santos

Publicado em Literatura. ligação permanente.

16 Respostas a Diário de um treinador (I)

  1. Mano diz:

    Curti o texto, LF.

  2. arbo diz:

    também gostei
    [tem uns três "por que" ali q podiam se ajuntarem-se]

  3. J Petry diz:

    Aguardamos ansiosamente a continuação.

  4. Eduardo diz:

    Legal LF. Emulando as imaginações de thalles??

  5. Mateus diz:

    Acompanharei.

  6. Sensacional. Compartilhei no Google Reader e tudo mais.

  7. beretta diz:

    “O empresário aquele só apareceu no segundo tempo do coletivo. Queria levar o Uílquinson pra segunda divisão paulista. Mandei ele tomar no cu.”

    Seria demais ver o Falcão dizer isso sobre a saída do Damião.

    Totem-Rã: “I wanna buy your striker.”
    Falkón: “Fuck you.”

    :~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

  8. VolKart diz:

    Já adianto a sequência da série:

    Diário de um treinador (II)
    Nelcir acertou com um clube de Portugal e me chamou.
    FUI!!!

  9. Leonardo Fleck diz:

    Bahh fera…

    Acompanharei

  10. Camilo C.E.O. diz:

    Série épica que começa nesse texto. THUMBS UP!

    Off topic: Pato Abbondanzieri disciplinando o filho:

  11. Eduardo diz:

    quando vi a foto do post, jurei que o texto seria sobre o Joel Santana…

    off topic: que golazo do Aguero…
    off topic 2: não tem como evitar a surra de toalha molhada com SAL de Uyuny que vai levar o Moreno por aquele lance perdido… e merece…
    off topic 3: chamada da gaucha, “Canarinhos reforçados de PATO e GANSO” dá margem para uma péssima piada em caso de fracasso.
    off topic 4: Carta na manga do Odone… reforço tático e ainda enfraquece o rival… acho que ali estava a munhequeira colorada…

  12. Eduardo diz:

    aliás, falando em Julinho, será que agora o Mi2ê vai jogar?

  13. Eduardo diz:

    ahh… e off topic 5: Ceconnelo, abriu vaga na Academia Brasileira de Letras… como estão teus contatos?

  14. Pingback: Diário de um treinador (II) | impedimento.org

  15. Rotundo diz:

    LF, cada vez melhor. Obrigado pelos textos sempre saborosos e que fazem pensar.

  16. Pingback: Diário de Um Treinador (IV) | impedimento.org

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