Embalos e cornetas de uma tarde de futebol em Nova Lima

Tarde do último domingo, sol fraco, bairro do Bonfim, em Nova Lima, coisa de vinte quilômetros ao sul de Belo Horizonte. Ali está o tradicional e aconchegante (ou, para aquela turma que pede licença antes de fazer ressalvas a marcações equivocadas do árbitro, “ultrapassado e desconfortável”) Estádio Castor Cifuentes, o Alçapão do Bonfim.

Junto aos portões do estádio, apenas quinze minutos antes do pontapé inicial, amigos se cumprimentavam, jovens e idosos se misturavam, o bilheteiro calculava o meu troco vagarosamente (paguei os dez reais do ingresso com uma nota de vinte) sem que o restante da fila se exaltasse. Um desavisado poderia imaginar que ali aconteceria uma quermesse ou um batizado, não estivessem quase todos trajando camisas alvirrubras em listras verticais (dos mais diversos fabricantes e patrocinadores, oficiais ou não). A tranquilidade era tanta que mais da metade do público ainda estava no lado de fora quando se inciou o jogo, e todos entraram sem o habitual empurra-empurra de todo jogo no Mineirão e no Independência.


Torcedores sempre insatisfeitos, cornetando seu time

Mineirão e Independência, por sinal, estão simultaneamente em reformas, o que faz com que os três grandes da capital, América, Atlético e Cruzeiro, mandem seus jogos na Arena do Jacaré, em Sete Lagoas (80km de BH). Apesar disso, os três se mantêm entre os quatro primeiros colocados desde o início, e em nove rodadas houve apenas uma vitória de um time do interior sobre um da capital: fora de casa, o América de Teófilo Otoni derrotou o xará belorizontino por 3×1, na 7ª rodada.

É improvável que um dos três grandes fique fora das semifinais. E o Villa Nova precisava conquistar sua primeira vitória em casa para seguir na briga pela quarta colocação. Chegaria a 15 pontos, encostando no América/TO (que derrotara o Ipatinga três dias antes e tinha 18 pontos). A Caldense, adversária do time novalimense, tinha 10 pontos e vencendo ultrapassaria o Tupi de Juiz de Fora e o próprio Villa Nova, chegando à quinta posição, que vale uma vaga na Série D do Campeonato Brasileiro.


Cada torcedor da Caldense levou uma faixa

Na primeira metade da partida, o que se viu em campo não fez jus à animação da torcida local. A Caldense contentava-se com raras tentativas de contra-ataque, e o Villa Nova sentia o desfalque do atacante Alan Taxista, recém-negociado com o Águia de Marabá/PA. Sem seu principal homem de frente, o Leão do Bonfim não conseguia coordenar os chuveirinhos na área com os momentos em que alguma atacante se fazia presente ali. Na arquibancada, a charanga do Villa mostrava o entrosamento que faltava a ambas equipes e desfilava seu vasto repertório: de “Cachaça Não É Água” e “Mamãe Eu Quero” até “Superfantástico” e “Diana”, aquela do Paul Anka. A música era interrompida apenas quando se fazia necessário aos corneteiros e trompetistas dirigir palavrões ao atacante Marinho, culpado de inoperância crônica, e ao técnico Wilson Gottardo (aquele!), culpado de escalar o Marinho.

Veio o segundo tempo, o Marinho continuou em campo, mas a torcida pouco tempo teve para protestar: ainda no primeiro minuto, o bom lateral-direito Alex Santos foi à linha de fundo e cruzou para a entrada da área, de onde o camisa 18, Felipe, acertou um voleio que não deu chances ao goleiro da Caldense. Um gol logo no início muda o panorama do jogo, diz a frase-feita número cinco dos comentaristas de TV. E uma mudança realmente ocorreu aqui: com os espaços deixados pela Caldense, que tentava atacar sem ter capacidade para isso, o Villa trocou os chuveirinhos errados do primeiro tempo por contra-ataques com finalizações erradas. Algumas por excesso de preciosismo (“não consegue nem fazer gol feio e vai tentar fazer gol bonito?”, disse com sabeoria um vilanovense sentado ao meu lado), outras por afobação.


Show do intervalo: crianças brincam no gramado do Alçapão do Bonfim

Após os 40 do segundo tempo a Caldense, finalmente, ameaçou o gol adversário em duas oportunidades, sem obter sucesso, e no último lance da partida o Villa acertou uma cabeçada na trave da Caldense. O 1×0 acabou premiando o time mais capaz, e transforma o jogo da próxima rodada (10ª e penúltima) entre América/TO e Villa Nova na partida mais importante da primeira fase. A Caldense já não aspira a nada na competição, mas está feliz em não retornar ao Módulo II, onde esteve nas temporadas 2008 e 2009. Funorte de Montes Claros, Democrata de Governador Valadares e Ipatinga brigam contra o descenso, sendo que os dois últimos ainda não venceram na competição.

Classificação

Cruzeiro 25
Atlético 20
América 19
América/TO 18
Villa Nova 15
Tupi 12
Uberaba 10
Caldense 10
Guarani 7
Funorte 5
Democrata/GV 4
Ipatinga 4
(Cruzeiro e Tupi têm um jogo a mais)

Texto enviado por Paulo Torres

Publicado em Contribuições, Estaduais, Pela América. ligação permanente.

12 Respostas a Embalos e cornetas de uma tarde de futebol em Nova Lima

  1. Sanchotene diz:

    Uma final entre os 4 grandes -Cruzeiro, Atlético, América e Villa- seria sensacional.

    Terem reformado o estádio em Sete Lagoas foi ridículo. Seria muito melhor e mais justo terem construído um Alçapão Século XXI em Nova Lima!

  2. Eduardo diz:

    Hahaha. Descrição da charanga pelo Paulo aplica-se para 90% das torcidas do Brasil. Bacana.

  3. Luís Felipe diz:

    o Marinho é aquele atacante que subiu com o Galo em 2006?

  4. Marinho é esse mesmo. Foi bem no Galo em 2006 e 2007, já tinha lá 29 ou 30 anos, e depois não se firmou em lugar nenhum.

    E falam em um estádio novo em Nova Lima há pelo menos cinco anos – http://www.villanovamg.com.br/villanews_detalhe.php?n=172 – mas nenhuma obra começou até hoje. O Alçapão é inviável, para transformá-lo em algo capaz de receber jogos grandes teriam que desapropriar meia centena de casas, duas ruas e uma avenida.

  5. Frank diz:

    “Não consegue nem fazer gol feio e vai tentar fazer gol bonito?”

    haahhfdh…. e essa descrição se aplica a uns 70% dos centroavantes do futebol brasileiro…

  6. Eduardo diz:

    Roth deve estar rindo sozinho. 15 min em Casa, time titular e levando 2 na cola… No gauchão……e ha quem ache que surpresa foi o Mazembe.

  7. Eduardo diz:

    E agora o Falcão deve estar rindo. Time de guerreiros. Hehehe.

  8. Frank diz:

    Vai dando grenal na farroupilha…
    Ou seja, teste de fogo para o Falcão…

  9. Sancho diz:

    Re 4

    Eu sei, tocaio. Mas poderia ser construído noutro lugar. Melhor, aliás. O local lá, em meio a um bairro residencial, entre ruas estreitas é horroroso.

  10. Anônimo diz:

    Táia ê?

  11. gilson diz:

    Já procurei camisa do Villa em BH e vou contar, não é fácil.

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