Os sonhos de Katumbi

Moises Katumbi é uma espécie de Assis Chateaubriand da província de Katanga. Governador local, Katumbi serve o estado com dinheiro do próprio bolso, para que o estado também sirva a ele. Quando assumiu o governo, em 2007, a província não possuía nenhuma ambulância. Katumbi comprou logo sessenta com seu dinheiro, ganho com a extração de minerais.

A República Democrática do Congo (eterno ZAIRE) é responsável por 30% das reservas mundiais de diamantes e por 70% das reservas de coltan, minério essencial para a produção de notebooks e telefones celulares mundo a fora. Essa riqueza faz com que o país viva uma constante disputa entre lideranças multimilionárias como Katumbi, enquanto a maior parte da população vive na miséria.

O futebol é parte importante desta disputa. O jornalista britânico Steve Bloomfield aponta que, no último trimestre de 2009, o orçamento do Ministério do Esporte foi três vezes maior que o do Ministério da Justiça. Em 2009, após uma vitória da seleção do Congo contra Gana, o presidente Kabila deu um Toyota Prado e um envelope com gorda quantia de dinheiro para cada um dos jogadores.

O comandante das Forças Armadas do país é dono do Maniema Union; o governador da província de Kinshasa (onde fica a capital do país, de mesmo nome) é dono do AS Vita Club. Moises Katumbi é dono do Tout Puissant Mazembe – em português, o Todo-Poderoso Mazembe – que acaba de vencer seu quarto título da Liga dos Campeões Africanos, o segundo consecutivo.

Steve Bloomfield visitou Lubumbashi, cidade-sede do Mazembe, com cerca de 1,5 milhão de habitantes, enquanto a equipe disputava as semifinais e finais da Liga dos Campeões Africanos de 2009. Correspondente do The Independent na África entre 2006 e 2010, Bloomfield registrou toda a excentricidade e narcisismo de Katumbi no excelente “Africa United: How Football Explains Africa”, lançado pouco antes da Copa do Mundo. Um brilhante relato sobre futebol, paixão, cultura, política e identidade nacional na África, que ainda aguarda tradução para o português.

Bloomfield visitou um líder guerrilheiro em seu esconderijo, na floresta tropical. Foi até um campo de refugiados no Sudão. Sempre guarnecido por seguranças armados até os dentes, visitou a Somália, um país sem estado. Esteve também na mansão de Moises Katumbi.

Assistiu ao governador de Katanga praticar tênis, como faz todas as manhãs. Os muros em volta da quadra de tênis exibem murais que mostram passagens da vida do dono do Mazembe. Katumbi em um jet ski no lago de sua mansão rural. Katumbi lutando contra um crocodilo. Katumbi fazendo um ace.

O jornalista também conversou com Katumbi em uma sala com uma enorme televisão de plasma, sempre ligada no noticiário local. “Ele interrompe a conversa sempre que as notícias falam dele”, notou Bloomfield. “O que acontece muitas vezes, já que Katumbi é o dono da emissora”.

Personalista, Katumbi gosta de visitar as repartições da província de surpresa, às 8h da matina, para ver se os funcionários chegaram no horário. Por precaução, leva sempre consigo maços de dinheiro, caso precise ajudar algum cidadão necessitado. “Ele me contou orgulhoso que venceu a eleição com 98,8% dos votos. Durante os poucos dias em que o segui pelas ruas de Lumbumbashi ele me pareceu bastante determinado a conquistar os 1,2% restantes”, escreveu Bloomfield.

No jogo de volta das semifinais da CAF Champions do ano passado, o Mazembe perdia em casa para o Al Hilal, do Sudão, por 2 a 0. Como havia vencido o primeiro jogo por 5 a 2, precisaria levar mais dois gols para ser eliminado. Isto não foi o suficiente para acalmar Katumbi, que desceu para o vestiário no intervalo e deu, ele mesmo, orientação para os jogadores, inclusive mexendo no posicionamento do time.

O sonho de Katumbi era fazer do Mazembe o melhor time da África novamente – o clube fora bicampeão africano em 1967 e 1968. Ele conseguiu. Katumbi tinha outro sonho: vencer o Mundial, jogando contra o Barcelona. Em 2009, isto era possível já que o Barça também disputou o torneio. Possível apenas na teoria, dirão os céticos. Mas eu cheguei a acreditar que a vitória do Mazembe era irrevogável.

Isso porque, durante os noventa minutos dos dois jogos do Mazembe no torneio, um torcedor da equipe com a cara toda pintada e com um saiote de palha típico de feiticeiros africanos dançou sem parar. Por um momento, achei que o Mazembe poderia fazer do pequenino Messi um simples bonequinho de vodu, espetado por uma chuva de gols africanos. Mas não, o Mazembe mostrou ingenuidade contra o Pohang Steelers, da Coreia do Sul, e foi eliminado nas quartas-de-final. Depois ainda conseguiu perder a decisão de quinto lugar para o Auckland City.

Agora, com o time já mais rodado, o Mazembe tem nova chance. No dia 14 de novembro, com um empate por 1 a 1, na Tunísia, o Mazembe superou o Esperance e sagrou-se campeão da CAF Champions de novo. No primeiro jogo, para 35 mil congoleses em chamas, o Mazembe havia triturado o Esperance: 5 a 0.

Sobre este jogo, Bloomfield anotou em seu Twitter: “Um gol em que a bola não entrou, um cartão vermelho que ninguém viu e um pênalti matreiro. Não, o futebol africano não tem problemas de corrupção”. Eu sinceramente achei que a bola entrou e que foi pênalti. No segundo jogo, contudo, decisões discutíveis pró-Mazembe se repetiram. Os torcedores do Esperance lotaram o estádio mesmo com a missão quase impossível. O clube tunisiano abriu o placar cedo, depois de mais de 20 minutos de abafa. Mas, antes mesmo de o Mazembe dar a saída após o gol, um jogador do Esperance foi expulso sem qualquer explicação aparente.

Não se trata aqui de criminalizar um possível adversário do Internacional. O Esperance, por exemplo, classificou-se para a final pelo saldo qualificado contra o Al Ahly, vencendo em casa por 1 a 0, com gol de BRAÇO. E sabemos bem que a corrupção no futebol não é problema exclusivo da África. A combinação “um milionário, um clube de futebol”, cantada por João Gilberto, não dá boa coisa em lugar nenhum do planeta. Além disso, o Mazembe tem muitos méritos. Faz um trabalho importante, a ser seguido pelos demais clubes africanos.

Para a temporada 2009, Katumbi investiu cerca de 3 milhões de euros. Steve Bloomfield afirma que a estrutura do clube congolês é similar a de clubes da segunda divisão do futebol inglês, o que não é pouco. O Mazembe é um dos poucos clubes africanos que consegue segurar jogadores. Estrela congolesa, o atacante Tresor Mputu foi assediado inclusive pelo Arsenal e permanece no clube. Seu salário em 2009 era de 10 mil euros. Mas o melhor de tudo são os prêmios. Por cada vitória do Mazembe na CAF Champions os jogadores chegam a receber a 8,5 mil euros.

Mputu, entretanto, não deve estar no Mundial. Apenas porque ele e um colega resolveram dar uma COÇA no juiz etíope de uma partida da CECAFA Kagame Cup, em maio deste ano. Pegaram um ano de suspensão para jogos internacionais. Talvez o Mazembe não sinta a falta de seu artilheiro. O clube hoje conta com dois mil garotos nas categorias de base. Deo Kanda, 21 anos, fez o gol do título, o de empate, em Túnis. E Katumbi garantiu a Bloomfield ter na base um garoto chamado Pele Pele, que é “melhor que Messi”.

Com esta estrutura, o torcedor do Mazembe que sonhar com o título mundial não chega a ser caso para internação psiquiátrica. E ninguém mais que Katumbi vai dizer que o “o Mazembe é o Congo no Mundial”. O governador de Katanga não é fã de Galvão Bueno. É que ele tem outro sonho – este bem mais realizável. Katumbi quer ser presidente do Congo. As eleições serão em 2011. Alguém duvida que ele pode conseguir?

Felipe Nascimento Prestes

Publicado em Mundial de Clubes. ligação permanente.

40 Respostas a Os sonhos de Katumbi

  1. dante diz:

    que genial esse texto.

    parabéns, prestes!

  2. Caralho véio, muito bom! Não basta pesquisar, é preciso CONCATENAR!

    Prestes, já leu “A Luta”, do Norman Mailer, sobre o Rumble in the Jungle entre o Ali e o Foreman no Zaire? Um dos melhores troços que li na vida!

    Abraços e parabéns.

  3. Sanchotene diz:

    Já sei o que cantar no Mundial:

    “Ô, Ô! Todo-Poderoso Timão! Dá-lhes, Mazembe!”

  4. Sanchotene diz:

    Esse segundo jogo parece o Flamengo-Atlético/MG pela Libertadores em 1981.

    Quanto ao texto, está muito bem fundamentado e redigido, Prestes. Parabéns.

  5. Bruno L. diz:

    Africanos tem todo um talento inato de serem fotografados em chamas.

    Enfim, a partir de agora, tou confiando muito mais em uma eliminação vermelha pelos pés de Pele Melhor Que o Messi Pele com golitos de MANCHETE, do que por aquela várzea que tá virada o Inter das cores bonitas.

    ENFIM, já tou me preparando psicologicamente pro bi =(

  6. Ismael diz:

    Bah Prestes, se puxou muito!

    Bela análise, belo trabalho! Parabéns!

  7. Atilio diz:

    Também gostei muito.

  8. Bessa diz:

    Prestes / Devendra / Russell Hammond (Quase Famosos).

    Esse é o cara.

    Que texto massa.

  9. Prestes diz:

    Valeu, rapeize.

    O trabalho foi quase todo do Steve Bloomfield, leiam este livro! É muito foda!

    Até eu que não sei inglês curti, uhuhuuhuhdauhsdha

  10. arbo diz:

    HEAR ME WHEN I COME, INTER

  11. Umbora Mazembe, minha porra!

  12. Rudi diz:

    Não me surpreenderia nada eles vencerem nas quartas e chegarem até a semifinal

  13. FERN diz:

    este é realmente (ainda) um espaço diferenciado…

    pero o único FOOTBALL que existe além do ocidente é o RUGBY!!!

  14. Álisson diz:

    Excelente texto Prestes.Vou tentar adquirir o livro.

  15. Sensacional, Devendra.

  16. douglasceconello diz:

    Baita texto deste CHILENO safado. Queria muito ver um time africano realmente foda tocar o horror no Mundial de Clubes – quando isso não me causasse DOR, claro..

    E acho que está mais do que na hora de a ImpedCorp esguir o exemplo de KATUMBI e investir em um clube de divisões inferiores.

    Estamos de olho no XV de Piracicaba. Projeto semifinal da Libertadores em 2013, eu acredito.

  17. Grande crônica do Prestes sobre o adversário CERTO do Inter nas semis.

    Time do M`Putu, vencedor da KaGame Cup. Meu deus!

  18. Roger diz:

    #8 e #9

    Melhor sequencia de comentários.

  19. Logan diz:

    “A República Democrática do Congo (eterno ZAIRE) é responsável por 30% das reservas mundiais de diamantes e por 70% das reservas de coltan, minério essencial para a produção de notebooks e telefones celulares mundo a fora. Essa riqueza faz com que o país viva uma constante disputa entre lideranças multimilionárias como Katumbi, enquanto a maior parte da população vive na miséria.”

    Triste isso aí. E o filho da puta investindo em futebol.

  20. Frank diz:

    “CECAFA Kagame Cup”…

    Olha aí um nome melhor do que a Suruga…

  21. Santi diz:

    Excelente, Prestes!

  22. Grande texto.

    E tem gente que perde tempo lendo ZH. NUNCA que uma publicação qualquer vai atingir o nível muitas vezes alcançado aqui no blog.

  23. fino diz:

    genial, prestes!!!!!!!

  24. Cícero diz:

    todo mundo inspirado, comovente ver isso.

  25. gilson diz:

    Bueno, se o Mazembe ganhar a festa vai ser do caralho. Esses caras aqui não saem do Brasa: http://www.youtube.com/watch?v=M6NEWnkP7Hk&feature=related

  26. COISA LINDA O JUIZÃO TODO CAGADO CORRENDO

    LAJELIAJEALEAILEJALIE

  27. Eduardo diz:

    Que belo texto, seu Prestes.

    Arbo, disseste em outro post que nao viste o jogo do tricolor pq estava em um casamento. Por acaso era de um xara teu?
    Se for, eu estava no mesmo casamento e “ouvi” penalti no Fsantos. Hehhehe.

  28. Eduardo diz:

    Que belo texto, seu Prestes.

    Arbo, disseste em outro post
    que nao viste o jogo do
    tricolor pq estava em um
    casamento. Por acaso era de
    um xara teu?
    Se for, eu estava no mesmo
    casamento e “ouvi” penalti
    no Fsantos. Hehhehe.

  29. Branco diz:

    Muito bom o texto. e pretendo seguir o conselho e dar um jeito de comprar esse livro.

  30. Eduardo diz:

    2 msgs por internal error

  31. Mauer diz:

    Parabens, Muito legal o texto, e os videos tambem

    Acredito que esse time não deva causar nenhum problema ao Inter, e mesmo entrando meio nervoso, e com a cabeça no final, o Inter passa sem muitos esforços

  32. Cunegundes Vaginildo Botelho Pinto diz:

    NADA COMO UM NEGRO
    com seu pau de carvalho, correndo atrás de uma xoxota delirante rósea de uma européia inconsequente
    EMBRIAGUEZ DE SENSUALIDADE
    ó áfrica, onde os mulatos foram inventados
    onde fubõezinhos europeus foram cirurgicamente abertos por penis pósticos
    QUACK

  33. LAEFarinatti diz:

    Excelente texto!

  34. Charlinho ATLETICANO-MG diz:

    ” Todo-Poderoso Mazembe ”

    AFRIKA KORPS UBBER ALLES

    pra cima deles, Gen. Rommel!

  35. Charlinho ATLETICANO-MG diz:

    “No primeiro jogo, para 35 mil congoleses em chamas”

    torcida QUILOMBO JOVEM

    agora, falando em torcida com muito negão, loko deve ser assistir jogo dos Reggae Boys lá na Jamaica, uns 40 mil rastas em chamas, ou melhor, com fininhos em chamas, 90 minutos de fumaça,,,e mais copeiros que sinalizadores

  36. arbo diz:

    eduardo, willian é o nome do cumpadre q casou.
    acompanhava-se pelos celulares, mas no silencioso MODE.

  37. BENHUR PERES diz:

    AGORA SÓ FALTA ACRESCENTAR OS DOIS ÚLTIMOS JOGOS QUE O MAZEMBE MATOU. PACHUCA DO MÉXICO, E O INTER O PACHUCA COM GRIFE.

  38. izabel. diz:

    só li agora.
    excelente, prestes.

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