As entrevistas dos boleiros

Não existe coisa mais chata em rádio e televisão do que entrevistas com jogadores de futebol. Nos jornais impressos ainda dá para agüentar porque, quando tem talento, o repórter sabe organizar o texto e vez por outra transformar a entrevista em uma leitura até agradável. Mas quando é com o microfone fica uma coisa lamentável. São sempre as mesmas obviedades, as mesmices, as monótonas repetições de termos e expressões, a tal ponto que os mais diversos jogadores parecem um só. É, sim, uma indigência cultural de doer. O mais mauricinho dos nossos craques, o Kaká, do Milan, não escapa disso. E, na maioria das vezes, os entrevistados são jovens ricos, todos eles muito acima do nível de vida do povo dos quais eles são originários.

Mas não se pode culpá-los. Os meios de comunicação também se renderam à mesmice e às obviedades. Fazem sempre as mesmas perguntas e, é claro, ouvem invariavelmente as mesmas respostas. É preciso levar em conta que esses jovens jogadores de futebol têm uma baixa escolaridade e os estudos não fazem parte de seus projetos de vida. Por isso acredito que os meios de comunicação devem repensar o tipo de entrevistas que fazem com os jogadores: apelar para a criatividade, buscar a autenticidade e a singularidade de cada um dos boleiros, enfim, mudar o tipo de entrevista, procurar fazê-los falar de uma forma irrepetível, se é que as entrevistas com os jogadores são imprescindíveis. Para mim, elas só servem para “encher lingüiça” antes das partidas começarem – o que, para quem adora futebol como é o meu caso, é o que interessa.

Também penso que as direções dos clubes deveriam ter mais preocupações nesse sentido. Não simplesmente paparicar esses jovens deslumbrados com a riqueza que chegou de um dia para o outro, mas realizar programas com eles, levando-os a pensar sobre a vida, sobre a importância de um mínimo de nível cultural e que suas trajetórias não podem se limitar à bola (ainda que esta seja o principal objetivo de suas profissões) e mostrar, com exemplos concretos e individuais, que um jogador de futebol pode, também, ser um cidadão articulado, como Falcão, Sócrates e Tostão.

Quero deixar bem claro que nunca me ocorreu a bobagem de pretender transformar um boleiro num Sartre. O grande intelectual fica bem na arquibancada. Que eu saiba o único que tentou jogar foi Albert Camus. E nem sei se ele era bom de bola.

Crônica do jornalista e escritor Luiz Pilla Vares, publicada no jornal Zero Hora (costumamos informar o endereço) da última quinta, bem no dia em que ele morreu, aos 68 anos. Militante da resistência à ditadura militar no Brasil, Pilla Vares foi secretário de Cultura em Porto Alegre e no Governo do RS.

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0 Respostas a As entrevistas dos boleiros

  1. Ismael diz:

    Ainda bem que a cada década surge um Jardel ou um Vicente Mateus pra “alegrar” essas entrevistas. Teve uma inesquecível do Marcinho, de quando jogava no gremio… o lateral estava “debilitado”!

  2. fino diz:

    meu iáiá, meu iôiô…

  3. Almir diz:

    O Alex se expressa bem. Só falta engrossar a voz.

  4. Luís Felipe diz:

    Pilla acreditou até o final nas idéias da juventude. Homem de rara estirpe.

    Lila não dirá, mas estava 0×0 quando não deram um pênalti pro Flamengo…

  5. Luís Felipe diz:

    sobre o jogo do Inter:

    Um time que paga a segunda maior folha salarial do país não pode ter Ricardo Lopes na lateral-direita.

  6. Luís, o que me irritou MESMO foi quando o Tite substituiu o Índio por outro zagueiro (Danny). Isso aos 42 minutos. É um CAGALHÃO.

    Sobre o Ricky Lopes: tens razão, claro. É ridículo.

  7. Sobre o Pilla Vares: grande ser humano. Deve ter morrido ao ver o que Mônica Leal faz numa cadeira que já foi sua. RIP.

  8. douglasceconello diz:

    Grande texto, grande PERSONA.

    E é tão bonito quando um veículo linka o outro.

  9. Prestes diz:

    Pilla Vares fechou com chave de ouro.

  10. Prestes diz:

    E mostrou que dá pra criticar a imprensa usando a própria.

  11. Palmas para este texto. Estou me formando em Jornalismo e penso nisso toda vez que ligo o rádio ou a TV para ouvir ou assistir um jogo de futebol. É realmente enfadonho e cansativo ouvir essas entrevistas, mas a culpa não é somente dos jogadores que tornam essas entervistas chatas. São, em grande parte, culpa de jornalistas que fazem perguntas merecedoras de respostas desse tipo. É preciso renovar o repertório desses profissionais de imprensa. O primeiro passo é ler mais, pois tenho a teoria de que jornalistas esportivos lêem pouco e o segundo passo é trabalhar com a criatividade.

    Abraço ao pessoal do impredimento

  12. Rudi diz:

    Uma vez vi comentário da Dad Squarisi, editora do Correio Braziliense e uma das maiores especialistas em Língua Portuguesa deste país, comentando que há muito mérito nas entrevistas dos jogadores sim… eles possuem uma capacidade diplomática enorme, pois existem perguntas capiciosas onde eles conseguem – apesar do vocabulário pobre – sair-se bem, de maneira a não gerar polêmica (exceção feita a alguns jogadores mais conhecidos_) e, apesar da mesmice, atender as perguntas.
    É bem isso… as perguntas pedem respostas assim

  13. CAMILE diz:

    Olá, vocês são de Porto Alegre?

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