Amigos, a humildade acaba aqui. Desde ontem o Fluminense é o campeão da cidade. No maior Fla-Flu de todos os tempos, o tricolor conquistou a sua mais bela vitória. E foi também o grande dia do Estádio Mário Filho. A massa “pó-de-arroz” teve o sentimento do triunfo. Aconteceu, então, o seguinte: — vivos e mortos subiram as rampas. Os vivos saíram de suas casas e os mortos de suas tumbas. E, diante da platéia colossal, Fluminense e Flamengo fizeram uma dessas partidas imortais.
Daqui a duzentos anos a cidade dirá, mordida de nostalgia: — “Aquele Fla-Flu!”. Ah, quem não esteve ontem no Estádio Mário Filho não viveu. E o Fluminense fez uma exibição perfeita, irretocável. Lutou com a alma indomável do campeão. Ninguém conquista o título num único dia, numa única tarde. Não. Um título é todo sangue, todo suor e todo lágrimas de um campeonato inteiro.
Acreditem: — o Fluminense começou a ser campeão muito antes. Sim, quando saiu do caos para a liderança. “Do caos para a liderança”, repito, foi a nossa viagem maravilhosa. Lembro-me do primeiro domingo em que ficamos sozinhos na ponta. As esquinas e os botecos faziam a piada cruel: — “Líder por uma semana”. Daí para a frente, o Fluminense era sempre o líder por uma semana.
Olhem para trás. Da rodada inaugural até ontem, não houve time mais regular, mais constante, de uma batida mais harmoniosa. Mas foi engraçado: — por muito tempo, ninguém acreditou no Fluminense, ninguém. Um dia, Flávio veio de São Paulo. Era o ponta-de-lança mais esperado que um Moisés. Queríamos um goleador. E nunca mais se interrompeu a ascensão para o título.
O curioso é que, há muito tempo, aqui mesmo desta coluna, fez-se o vaticínio de que o campeonato teria a sua decisão num Fla-Flu. Foram autores de tal profecia, primeiro, o Celso Bulhões da Fonseca; em seguida, o Carlinhos Niemeyer, um e outro rubro-negros. O que ambos não sabiam é que já estava escrito há 6 mil anos que o campeão seria o Fluminense. E vou citar um outro oráculo: o Haroldo Barbosa. Quando o tricolor parecia uma piada, o bom Haroldo piscou o olho para o Marcello Soares de Moura: — “Este é o ano do Fluminense!”. E do seu olhar vazava luz.
E mais: — na sexta-feira, o presidente do Fluminense, Francisco Lapport, convidou para um almoço, em sua residência, a mim, ao Marcello Soares de Moura e ao Carlinhos Nasser. Ainda na mesa, e antes do cafezinho, baixou-nos o sentimento profético do título. Amigos, o que se viu ontem no Estádio Mário Filho foi espantoso. Primeiro, a tempestade de bandeiras, de pó-de-arroz, os pombos tricolores e rubro-negros.
E que formidável partida! Houve, durante noventa minutos, um suspense mortal. O Fluminense fez o primeiro gol e o Flamengo empatou. O Fluminense fez o segundo e o Flamengo mais uma vez empata. Duzentas mil pessoas atônitas morriam nas arquibancadas, gerais e cadeiras. E foi preciso que Flávio, o goleador do Fluminense, o goleador do campeonato, marcasse aquele que seria o gol da vitória, da doce e santa vitória. E o rubro-negro não empatou mais, nunca mais. Era a vitória, era o título.
Agora a pergunta: — e o personagem da semana? Podia ser Cláudio, que fez uma exibição magistral e, inclusive, um gol. Podia ser Denílson, que volta a ser o “Rei Zulu” e um dos maiores jogadores brasileiros de defesa. Penso também em Galhardo, que, a princípio nervosíssimo, teve intervenções sensacionais. Podia ser também Telê, que, sóbrio, modesto, trouxe a equipe do caos para o título. Mas entendo que desta vez o personagem deve ser o time. Do goleiro ao ponta-esquerda. Todos, todos mostraram uma alma, uma paixão, um ímpeto inexcedíveis.
Pelo amor de Deus, não me venham dizer que, no segundo tempo, o Flamengo jogou com dez. O rubro-negro cresceu com a desvantagem numérica, lançou-se todo para a frente. Eram dez fanáticos dispostos a vencer ou perecer. O Flamengo teve ontem um dos grandes momentos de sua história.
Mas, dizia eu no começo que a nossa humildade pára aqui. Passamos toda a jornada com um passarinho em cada ombro e as duras e feias sandálias nos pés. Mas o Fluminense é o campeão. Erguendo-me das cinzas da humildade, anuncio: — “Vamos tratar do bi”.
Crônica de Nelson Rodrigues, no jornal O Globo de 16 de junho de 1969. Neste vídeo, que não conseguimos EMBEBEDAR no post, dá para ouvir tudo isso com narração do Peréio e imagens do Canal 100.



time que jogou a terceira não merece ganhar Libertadores, nem nada significante…
Que texto!
Quem não pôde ir, não pode ver as fotos da II Impedfiesta, por lo menos?
Maledeto Roger…
Belo texto!
Bons tempos aqueles em que os petro-dólares não arrancavam nossos craques…
Isso eu gostaria de ver cantado num estádio; inteira!
Começando pela campana, desde cima
Crescendo em forma circular
Começando a caminar
Repetindo algunas vezes tuas palavras (Grêmio!)
E esperando em seu lugar
Aprendemos a voar.
Sempre eu te sigo a todas partes
Às vezes eu não posso mas eu quero
Agradeço, a alegria que me dás.
Sempre eu te sigo a todas partes
Às vezes eu não posso ainda qu’o deseje
Mas eu quero, te quero de verdade.
Sobre a terra que embarrava, ainda lembro
Comprendemos o sinal
Da única verdade.
Convertendo o que nos pegaste, em um circuito
Asfixiando a parede
Pudemos ver a realidade.
Sempre eu te sigo a todas partes
Às vezes eu não posso mas eu quero
Agradeço, a alegria que me dás.
Sempre eu te sigo a todas partes
Às vezes eu não posso ainda qu’o deseje
Mas eu quero, te quero de verdade.
Assinalando todo o estampado, desde cima
Crescendo em forma circular
Logramos mostrar a realidade.
Repetindo algumas vezes tuas palavras (Grêmio)
Asfixiando a parede
Tudo volta a começar.
Sempre eu te sigo a todas partes
Às vezes eu não posso mas eu quero
Agradeço, a alegria que me dás.
Sempre eu te sigo a todas partes
Às vezes eu não posso ainda qu’o deseje
Mas eu quero, te quero de verdade.
Rudi. Estive na Série C (Terceirona) e merecia ganhar a Libertadores. Não vou desfiar todos os motivos, o SPFC, o Boca, a melhor campanha, a altitude, o juiz, etc., etc. Ops, já fiz.
Terceira divisão dói tanto em tricolor quanto a Segundona nos gremistas, ou seja, quase nada. Foi ruim na época, ninguém quer voltar, o adversário toca flauta, os jornais cogitam o fechamento do clube, a falência, etc., etc, ruim mesmo, mas passo, o Fluminense tem uma história mais-que-centenária, e esteve na 3ª Divisão apenas em 1999, graças a um 1998 em que era comandado por uma “elite sectária”, como bem ressaltaram os atleticanos. Para terem uma idéia, o Flu chegou a ter 62 jogadores no plantel. Era a República Federativa dos Empresários. Mas essa galera já caiu fora. Alguns, já morreram (dirigentes). Desde lá, com exceção de 2003 e 2006, só boas campanhas, bons times, um bom futebol.
E, cá entre nós: em 1997 merecemos o descenso, mas em 1996, o Flamengo e o Atlético-PR armaram, e em 1998 (da B pra C), a maioria dos jogos foi roubada. O time jogou muito mal, o clube estava ridículo, mas eu vi todos os jogos e garanto que teve gol mal anulado, teve pênalti não dado, teve bola que não entrou e validaram… o Flu foi garfado em 98…