Felizes os felizes

Tem certos dias, quando passo no subúrbio, que vejo a gurizada jogando bola no barro vermelho. Estou eu lá dentro do ônibus, voltando esgualepado e com toda a mortalidade do mundo nas costas, e uns oito ou dez malandros estão correndo atrás de uma bola, já quase escuro. E tudo que eu mais queria era descer do ônibus e me infiltrar no meio do jogo, fingindo que não me envergonhava dos muitos centímetros e quinze anos a mais que meus companheiros de time e adversários.

Nada no mundo algum dia vai poder se comparar aos meses do ano abençoados pelo horário de verão quando se tinha entre dez e quinze anos de idade. Já nos parecia um absurdo estudar pela manhã e termos apenas cerca de cinco horas para ficar correndo em um campinho improvisado, com sol, vento ou chuva. Nas férias, não havia nada que pudesse a impedir a correria desenfreada durante todo o dia. E sem nenhum Paulo Paixão para supervisionar, sem desfibrilador na beira do campo. Os times mudavam, equipes de fora entravam, alguma palhaçada servia de intervalo. O sol desaparecia e continuávamos voando atrás da mancha branca que pulava pelo terreno irregular. Até que aparecia uma mãe para nos lembrar que o paraíso não existe, que aquele prazer tinha que ter um fim. Saíamos cabisbaixos, cansados e satisfeitos. E, mesmo fingindo que não, tínhamos consciência de que nem acabando no time profissional do clube de coração conseguiríamos sentir a mesma coisa. Aquilo teria de acabar, porque divertir-se demais e tanto e de forma tão perfeita não é uma coisa justa num mundo fodido como este.

Saudações,

Douglas Ceconello.

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0 Respostas a Felizes os felizes

  1. Carlos diz:

    Amém.

  2. Paul diz:

    Bah.
    Resumiu a infância no campinho atrás da igreja em Pedro Osório.
    Passei por lá esses tempos, o antigo campo virou uma praça decrépita, uns bancos de cimento atirados, canteiros abandonados, e um altar sem o menor sentido.
    Muitas vezes fomos até a prefeitura (numa cidade daquele tamanho, nada mais natural que o prefeito e 90% do seu secretariado serem os parceiros de trago do teu pai, bancário do BB) pedir prá colocarem umas traves de ferro, já que uma vez por semana tínhamos que ir até alguma olaria pedir doações de eucaliptos para repor as goleiras que haviam sido derrubadas e levadas embora.
    Nunca se teve dinheiro para as traves.
    O que a gurizada precisava mesmo é de MAIS UMA PRAÇA.
    E Douglas, nos diferenciamos em um singelo ponto: eu não tinha consciência de que aquilo teria que acabar.

  3. Moe diz:

    Mestre:
    “Nada no mundo algum dia vai poder se comparar aos meses do ano abençoados pelo horário de verão quando se tinha entre dez e quinze anos de idade.”

    Nenhum Winning Eleven compensa esse prazer.

  4. Gabriel diz:

    O winning eleven somava!! Me lembro que jogava na rua com golerinhas produzidas por madeiras que sobravam da madeireria Aracuã e jogava no meio da rua, arredando as golerinhas toda vez que passava um carro.

    A vida era espetacular
    Estudo pela manhã, futebol das 2 as 9 da noite, e depois o International Superstar Soccer Deluxe a noite depois da janta…(o qual depois veio a virar o winning eleven)

    Queria saber como era possível ficar 6 horas jogando bola, correndo feito um doido e sem cansar…

  5. Robson diz:

    Que tempo bom.

  6. Beto Borracho diz:

    E a rede da golerinha era feita com saco de batata!

    Eu jogava no campo do Vera (quando o Mão deixava) e nas praças de Cachoeirinhas. A gurizada tava sempre inventando um troco novo: taco, sela ou cela, carrinho de “lomba” (em Cachoeirinha não tem lomba) pescar, ir até a Base de Canoas de bicicleta pelo IRGA…mas durava 1-2 semanas a bola voltava com força!

    Como diz aquela musica: “que tempo bom que não volta nunca mais”

  7. Carlos diz:

    Na frente do meu prédio tinha uma praça…Praça Bonita, esquina da guaporé com joão caetano…
    Putz…tinha um lixo de concreto, q um cara pichou “estádio praça bonita”…grandes jogos lá…todo santo dia, da 1 até as 7 da noite, era jogo…até a luz terminar, ninguém enxergar mais nada e alguem gritar “quem fizer o primeiro ganha”…grandes brigas, bola entrou, não entrou, falta, não foi….
    Mas realmente, queria saber como q se jogava 6 horas sem parar, sem ficar cansado…
    Q beleza essa época…

  8. Gabriel Teixeira diz:

    Nada como jogar uma partida de futebol.

  9. Roger diz:

    Na minha infância os horários de verão eram aproveitadas em um campinho que era uma ladeira, e tinha uma árvore bem no meio, quer dizer, bem na meia esquerda de quem estava atacando ” a descer”…
    Isso fazia toda a diferença na hora de definir o time e a estratégia…
    Ainda tem o campinho, lá na saudosa Encruzilhada do Sul pra quem quiser ir ver…

  10. Luís Felipe diz:

    jesus cristo.

    esse texto foi definitivo. Obrigado.

  11. fino diz:

    Sensacional…

    gol a gol
    3 dentro, 3 fora
    gol só de dentro da aréa
    bobinho

    sem falar do gritedo: “último a ir no gol!!” “penúltimo!!” e assim por diante

    asduifhuiuiasdhuhfasg

  12. Caue diz:

    Sabe tchê, acho que é pela ausência de prazeres como esse que o Douglas descreveu que os jogadores de hoje são os merdas que são.

    Do jeito que o cara com talento se “profissionaliza” cedo hoje em dia, vira jogador sem saber o que é jogar uma pelada furiosa aos 12 anos de idade em um campinho só pelo bacana da coisa. Com essa idade, futebol pra ele já é profissão.

    Aí dá nisso que vocês vêem nesse vídeo aí embaixo. Cassius Davis, 11 anos, não sonha em fazer gol pelo time dele. Sonho alto pra ele é jogar no Milan.

    http://fantastico.globo.com/Jornalismo/Fantastico/0,,8710,00.html

  13. douglasceconello diz:

    Lembro que o cúmulo do luxo nas peladas era ter rede nas goleiras. Uma vez um amigo meu e eu roubamos as redes de um campinho vizinho NA CALADA DA NOITE e levamos para o nosso. Nos sentíamos jogando no Monumental de Nuñez.

  14. Diogo diz:

    Tinha campinho de terra, mas a gente mais era na rua mesmo, calçada com blocos. O gol era o portão da minha casa. Os dois times chutavam no mesmo gol! Bons tempos aqueles no bairro Santo Antônio em Carmópolis de Minas…

  15. FERN diz:

    o engraçado que estes são momentos de prazer que acontecem na vida de todos os seres humanos seja com futebol ou com outras brincadeiras, aí crescemos e somos entregues totalmente despreparados para este mundo de MERDA.

    em alguns anos o suicídio passará de única questão relevante, para um fato a ser consumado!

  16. Francisco Luz diz:

    Se Fern era Nelson Rodrigues, virou EMO agora, jhjsdhafsa.

    Eu jogava mais na rua, também. A falta de terrenos baldios no centro de NH impediram que eu tivesse um time, ou algo do gênero. Mas jogávamos nos fundos da Fenac, numa rua fechada, ao lado da casa de um amigo. Eram uns 20 guris jogando em times de 3 ou 4 com tijolinho. E muito pedaço de joelho no chão…

    Bons tempos, realmente.

  17. André diz:

    Goleirinha com rede só tinha nos nossos campeonatos mais importantes, alguns times tinham ATÉ uniforme, meu sonho nunca realizado.

  18. Felipe catarina diz:

    Se bobear, o Cassius Clay ali é torcedor do Milan, por isso sonha em fazer gol pelo time dele. O texto tá muito bom, como sempre. Saudades dos bons tempos. No campinho que eu jogava tinha uma trave de futsal de metal que alguém roubou das quadras da UFSC e a outra trave a gente fazia um uma goiabeira que tinha lá e um chinelo. Mal dava pra notar a diferença de tamanho dos dois “postes”. A eterna discussão era saber se a bola que passou por cima do chinelo era gol ou não. Bons tempos, bons tempos…

  19. Caue diz:

    Cassius Clay é o saudoso Muhammad Ali, o milanês é Cassius Davis…

    Eu jogava na rua tb, num beco remoto de Caxias do Sul. Quem chegava mais cedo tinha a missão de correr com os carros de lá, não deixando ninguém mais estacionar.

    o Verissimo escreveu sobre esse magnífico futebol de rua, que “chama pelada de senhora”:

    http://carocoblog.blogspot.com/2006/02/futebol-de-rua-por-verssimo.html

  20. Celão diz:

    Jogava cinco, seis horas sem parar e sem comer, só abastecendo com a água do bebedouro. Hoje corro meia hora e levo dois dias para me recuperar.

    Mudando de assunto: gostaria de pedir a benção do nosso blogueiro Ceconello, pois hoje estarei voltando às quadras após mais de um ano parado por motivo de fratura.

    Saibam que havendo uma recuperação considerável, voltarei a esta página reivindicando o tão esperado jogo entre os leitores de Impedimento.

  21. Carlos diz:

    Caue…
    Até onde eu sei o Cassius Clay não morreu!
    saudoso????

  22. Carlos diz:

    off topic deprimente…
    vamos terminar como o uruguay…sem futebol, futebol falido, reduzido a nada…

    http://globoesporte.globo.com/ESP/Noticia/Futebol/Campeonatos/0,,MUL261186-4843,00-GEMEOS+TROCAM+FLU+POR+DICAS+DE+C+RONALDO.html

  23. douglasceconello diz:

    Estás abençoado Celão. Exijo no mínimo um gol de cabeça e uma expulsão.

    E um dia este jogo impedimentístico sai.

  24. bruno diz:

    Cassius Davis dá entrevista melhor que os profissionais, com 11 anos. “Aí o golero saiu NI MIM, eu, eu falo DIBLE DA VACA né, mas pode sê diferente. Dei o DIBLE DA VACA nele peguei do otro lado e chutei.”

    E a figura ainda é marrenta e não comemorou.

    Cassius Davis + 10

  25. lucas pp diz:

    saudoso campinho BEIRA-MATO, com uma parede de capim cheio de espinhos nas laterais.

  26. Luís Felipe diz:

    Carlos: é o fim.

  27. FERN diz:

    te cuida F Luz, não sabe o que é perigo ô rapá?

  28. Ow bruno o cara tem 11 anos por isso que ele falo uma coisa errada e voce ainda mais esceveu coisas que ele nem falo errado então fica queto que pelo o menos ele ja jogou em algum lugar que e voce ja jogou em algum lugar para falar do cara e ele não e marrento não ele tava cansado era isso

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