Fechando o cerco ao inescapável camisa 8

Entrei na pizzaria EUCALYPTHOS e fiquei aguardando no balcão. Um casal sentado numa mesa me cuidava com extrema desconfiança. O homem tinha os olhos vermelhos, portava um surrado bigode e os cabelos eram compridos e cheios de cachos. Olhei para cima e fiz cara de inocente. No fundo, pessoas pareciam se divertir num videokê, e notei que o lugar era muito pior por dentro do que parecia olhando lá de fora. O que não faz uma meia-dúzia de lâmpadas fluorescentes. O dono veio me atender.

- Vende cerveja de lata?
- Sim – disse o gringo, com uma cara simpática e solícita que me tranqüilizou.
- Me dá uma – emendei, sabendo que fazia aquilo para o bem do jornalismo esportivo. E continuei:
- Tu conhece o Marquinhos, irmão do Abel? Tem visto ele? Ele sempre vinha aqui.
- Olha, o Marquinhos faz muito tempo que não encontro. A última vez foi há mais ou menos um ano, quando organizamos um torneio. Se ele estiver por aqui, deixa ver, só pode estar lá ao lado da igreja, no bar do NÉLSON.

Puxou um papel e desenhou o local onde ficava o nobre estabelecimento do Nélson, “grudado na igreja”. Ai, Madalena. A esta altura eu já tinha vindo pela Flores da Cunha e dobrado à esquerda na Parada 59, pegando a mui sombria e assustadora Avenida Marechal Rondon. Parei ali, lugar em que Marquinhos costumava ir beber com companheiros de futebol de salão. Algumas vezes fomos juntos, mas em geral eu preferia confraternizar em ambientes diferentes.

Saí da pizzaria EUCALYPTHOS e continuei pela estrada perdida, que tem a importante tarefa de separar Cachoeirinha de Gravataí. Mais adiante, após uma famosa curva, entrei à esquerda. O lugar onde ficava nosso campo maior está tomado de casas. Não há mais uma faixa sequer do saudoso barro vermelho. Passo por uma casa em cuja varanda adolescentes mal-encarados torcem os beiços. Ali moravam dois gêmeos, que abriam seu lar para as festas mais bizarras. Um deles foi preso, o outro estava solto. Isto há uns cinco anos. Mais adiante, vi que ainda existe o campinho onde antigamente até cinco ou seis times esperavam para jogar, cada equipe com quatro na linha. O vencedor ia ficando na cancha. Certa vez roubamos as redes do campo de outra turma. Jogar com redes era chique, o auge da sofisticação varzeana. Com a rede dos outros, então, era muito melhor. Agora o campo é circundado por uma pracinha, que tem uma cuia gigante e inexplicável.

Dobrei à esquerda e entrei na antológica Avenida Holanda, cujo asfalto foi afundado por nossos passos e pneus de bicicleta entre 1994 e 1998. Passei pela esquina onde ficávamos olhando para o nada e falando bobagens. Havia outros jovens por lá, fazendo a mesma coisa, obviamente sem nosso brilho e desesperança graciosa. Certa vez, na época daquela novela RENASCER, Marquinhos cravou uma haste de ferro no chão, num pedaço de terra ali naquela esquina, e disse que EU viveria enquanto aquela haste durasse, referência à passagem em que ANTÔNIO FAGUNDES crava um facão no JEQUITIBÁ-REI depois que lhe tinham arrancado o couro. Nunca disse nada, mas sempre me pareceu algo bastante amedrontador. Se não houvesse ninguém, teria ido conferir o estado do aparato que no imaginário do Marquinhos deveria sustentar a minha vida.

Desci a lomba e saí em frente à igreja cujo salão abrigou clássicos embates de futebol de salão. O bar do Nélson estava fechado de tal forma que parecia nunca ter sido aberto. Fiz a volta pelos fundos da igreja e subi até a Marechal Rondon. O buteco da esquina, onde ele costumava jogar cartas, também estava fechado. Continuei até o final a linha do Fátima. Nada e nada. Voltei e novamente desci a rua da Igreja, passei pelo bar onde nos encontrávamos para beber e esperar o ônibus alugado que levaria a catrefa ao Beira-Rio. Certa vez fomos dessa forma ao Olímpico, para um clássico tarde da noite. Quando saímos, o ônibus tinha largado de pinote e ficamos totalmente desamparados, chegando em casa quando os galos já faziam as flexões vocais necessárias para anunciar mais um dia igual aos outros todos.

Percebi uma movimentação à direita. Dois bares estavam abertos e bastante movimentados. Estacionei e entrei no que tinha mais gente. Corri os olhos por todos os rostos e não vi sinal de qualquer conhecido. Mentira, conhecia uma cara, mas ele não fazia diferença. Fui ao balcão para pedir uma cerveja, e um cara gritava, raivoso como o diabo: “- Receber vocês querem? Porque senão eu vou embora.” O atendimento não estava satisfazendo aos clientes, era evidente. Peguei a cerveja e me mandei. Na saída, uma mulher berrava: “-Por mim, podem fechar esta merda. Nunca mais venho”. Em 1917, na Rússia, deve ter começado assim, com um atraso numa porção de fritas. Caí fora.

Dei umas bandas aleatórias, passei na frente da antiga casa do Éder, que fica defronte ao lugar onde morava o goleiro Cueca. Tive a brilhante idéia de ver como estavam as coisas na casa dos pais de Marquinhos. Tudo fechado, desligado e ERMO. Fiz uma volta gigantesca e gratuita, passei novamente em frente à EUCALYPTHOS. Duas gurias novas enfrentavam os perigos da noite e castigavam o cascalho com os saltos pontiagudos, na intenção de se embrenhar em alguma festinha suspeita. O jornalismo esportivo me impediu de parar e oferecer carona, e continuei na caçada ao personagem mítico de um bairro demasiado terreno.

Segui e parei em outra pizzaria, que costumava freqüentar bastante. O dono é um alemão deveras louco. Certa vez ele precisou ir a Porto Alegre para resolver pendências e conseguiu ser multado em TODOS os pardais da Avenida Ipiranga. Entrei e novamente não havia ninguém conhecido. Começava a ficar deprimido. O alemão me reconheceu. Estava usando uma camisa do Inter com a coroa sobre o distintivo. Cumprimentei-o dizendo: “Na última vez que te vi tu nem imaginava que um dia poderia usar esta camisa”. Ele riu. Perguntei sobre Marquinhos. Fazia tempo que não o via. Só então lembrei que aquele cara cabeludo do começo da noite era jogador do Alemanha, time quase imbatível em que Marquinhos jogava. A trama começa a se resolver. Personagens importantes brotam na noite de Cachoeirinha. Pedi uma Brahma Extra, SORVI e saltei fora. Marquinhos deve andar por aí. Devo apenas procurar nos lugares e horários certos, armado de alguns reais para o encontro fatal. A busca segue. E segue.

Para quem não está entendendo nada, aconselho isto aqui.

Saudações,
Douglas Ceconello.

Publicado em Colunas. ligação permanente.

40 Respostas a Fechando o cerco ao inescapável camisa 8

  1. Patrick diz:

    :~~~

  2. dante diz:

    :~~~~

  3. Paul diz:

    Excelente Douglas.

    Apenas uma correção oriunda do Vale a Pena Ver de Novo: quem cravou o facão aos pés do Jequitibá foi o Leonardo Vieira (young Antonio Fagundes) ANTES de tirarem o couro dele.

    Pela correção histórica,

    Paul

  4. Paul diz:

    :~~~~~~

  5. Francisco Luz diz:

    Rei da crônica.

    =~~~~~~

  6. fino diz:

    “Certa vez ele precisou ir a Porto Alegre para resolver pendências e conseguiu ser multado em TODOS os pardais da Avenida Ipiranga”

    Genial. Me identifiquei com este personagem, afu

  7. Bruno Ramires diz:

    Bela crônica, parabéns aí Ceconello.
    Aliás, tens alguma prima em Caxias do Sul? Me formei em Direito com uma guria chamada Camila Ceconello.

    Mudando do saco pra mala, no aguardo de post sobre a “imparcialidade” do STJD, que teve a falácia de condenar o Jorge “Marginaldívia” à cinco jogos de suspensão, após condenar o Gavillan à 120 dias de gancho.

    Abraços!

  8. douglasceconello diz:

    Cara, a parentada tá espalhada. Camila eu não conheço, mas só pode ser da FAMIGLIA. Me apresenta? dshsdfudsfhu

  9. Ricardo diz:

    Bruno: e tu viste o jeito que o canalha foi vestido ao julgamento, uma camiseta com dizeres algo como “RAT-BOY”. Debochado é pouco!

  10. Francisco Luz diz:

    Estou na fila para saber da Daniela Ceconello, que eu já apresentei em fotos no outro endereço.

  11. Beto Borracho diz:

    O alemão de camisa do inter é o Junior dono da KROKANT? Diga-se de passagem, a PIOR pizzaria do mundo!

  12. Lila diz:

    tá. e os primOs?
    ahhahahahhajhd

  13. João diz:

    Acho o papo de separatismo uma bobagem, mas quando vejo a forma como age o STJD e a gente completamente sem o que fazer, a não ser baixar a cabeça e dar uma de comportadinho, mesmo sabendo que no centro do pais eles se matam entre si e nada acontece…

  14. douglasceconello diz:

    Beto, não lembro do nome antigo nem sei se continua o mesmo. Não estava em condições de ler. ashhuasdhuhu

    Mas é uma que fica na AVENIDA ESTADOS UNIDOS, perto do COLÉGIO PORTUGAL.

    [certo que Beto e eu ou já brigamos ou já tomamos trago juntos. Ó mundo belo e irônico]

  15. Giordano diz:

    Saldöza Cachoeirinha.

  16. Beto Borracho diz:

    Sei qual é, essa é outra pizzaria (deve ser a 2º pior do mundo)! Como morava no Vera ia pouco a Fátima, mas joguei muita bola naqueles campinhos. Estudava com 2 gêmeas a Michele e a Gisele que moravam na 59, organizavam cada reunião dançante! Sem falar nas “visitas” que fazíamos depois dos jogos nas gurias da 59, aquelas casas de requinte duvidoso e cerveja a 5 pila. Bons tempos.

  17. Bruno Ramires diz:

    Ricardo: Não vi, mas acredito piamente, nada fora do comportamento padrão desse mau-caráter…

    João: Dois pesos e duas medidas, sempre foi essa a tônica do STJD… E esse ano eles se superaram.
    Espero que a promotoria tenha a hombridade de recorrer dessa decisão, assim como aconteceu no caso Gavillan.

  18. fino diz:

    lila, sua safadona.

  19. Lila diz:

    eu? imagina, fino.

  20. Renato K. diz:

    STJD = Safadeza Total. Justiça? Dispensamos.
    Pior que “absolver” o Valdívia foram os deputados enterrando a CPMI do Futebol, por “medo de o Brasil perder o direito de sediar a Copa de 2014″.
    Alguém aí, avisa o pessoal lá da Câmara que a FIFA JÁ CONFIRMOU o Brasil como país sede em 2014.
    Pela atenção, obrigado.

  21. Renato K. diz:

    Putz, tá legal o site novo – o comentário aparece NA HORA, e não depois de dezoito pai-nossos e vinte F5.

  22. EGS diz:

    Puta la merda, assim tu me RASGA A ALMA, Douglas.

    Maior cronista vivo.

    Como já diria aquele clássico da música brasileira: NÃO PÁRA, NÃO PÁRA, NÃO PÁRA NÃO.

  23. Giordano diz:

    Pô, agora ficou lindão isso aqui.

    Rumo à dominação da mídia esportiva.

  24. Menezes diz:

    Cadê os editores?

  25. João diz:

    Ainda sobre o STJD. Se a periferia (todos menos Rio, São Paulo e talvez Minas) se unissem poderiam mudar um pouco isso. Mas a verdade é que as rivalidades regionais impedem isso. Mas é um assunto muito pertinente. Quem sabe o Impedimento começa uma “Revolução Farroupilha”, uma “Nova legalidade”, sei lá. Boa pergunta, cadê os editores? O problema é sempre o mesmo. Esses caras da imprensa só pensam em dinheiro. Vai ver, esta hora estão negociando mais uma “transferência milionária”.

  26. izabel diz:

    mas o Marquinhos não lê o Impedimento?

  27. Pois é, Izabel. Parece que meu antigo bairro é um foco de resistência ao Impedimento. Senão algum destes maloqueiros já tinha se manifestado. rhsghs

    Os editores estão dando o sangue em seus respectivos trabalhos para não morrerem de fome e poderem satisfazer nossa multidão de leitores. shrhsh

  28. Menezes diz:

    Se foi craque, deve ter diabetes hoje. é uma lei.

  29. FERN diz:

    (Quem sabe o Impedimento começa uma “Revolução Farroupilha”, uma “Nova legalidade”, sei lá.

    fique tranquilo João o Impedimento ja declarou apoio total e irrestrito a LIGA PAMPA

  30. Antenor diz:

    Renato K. e Giordano, obrigado pelos feedbacks positivos.
    Quem mais tiver alguma sugestão sobre o blog, prenda o grito.
    Abandonei a crônica, mas sigo nos bastidores em busca do ideal.
    (ns)

  31. Apóio FERN e a Liga Pampa.

    Subscrevo Antenor.

    Touro brabo eu pego pela guampa.

    E a chinarada resfolega de pavor.

    (impossível resistir à rima fácil. CHUPA, BILAC! dsafhuidshfisaduf)

  32. Ponso diz:

    jfhbvsdkfbnsdfkj

  33. Renato K. diz:

    CHUPA, BILAC!

    Entrei em óbito.

  34. João diz:

    Porra meu, ficou bom demais este poema chulo. Acho que o Douglas devia continuar.

  35. izabel diz:

    depois de meses de castigo acesso o blog no trabalho. q blza.

    nada a ver com o tópico, mas pelo NOME DA CRIANÇA, dá pra colocar a notícia aqui:
    Menino vestido de Homem-Aranha salva bebê de fogo

    “Um menino de 5 anos resgatou um bebê de 1 e 10 meses de uma casa que pegava fogo em Palmeira (SC), na quinta-feira. Riquelme dos Santos estava fantasiado de Homem-Aranha durante o resgate. As informações são da RBS TV.

    A mãe do bebê disse que Riquelme manteve a calma durante o salvamento e disse que não era para ela ficar nervosa.”

  36. Egon diz:

    daí tá dificil mesmo…
    1º. post PHODA!!! parabens!!
    2º. o Eduardo Costa pega 120 dias por dar uma voadora pelas costas que acertou a barriga, sem imagem nenhuma… o valdivia blablabla;
    3º. depois, nós que temos mania de perseguição… mas não é só o Grêmio, teve o juventude e o caso alex alves tbm, o inter com o do marcão…
    mas, deixa pra lá…
    abrasss

  37. Titi diz:

    Literalmente assino embaixo do Egon! Deixa pra la … 900 pesos e 1587 medidas … mas como prometeu uma amiga minha, e eu endossei, vou com ela 3 dias “de a pe” ate o trabalho dela se o Gremio vencer o SPFC.

  38. Titi diz:

    E viva a noite Portoalegrense!

  39. dante diz:

    RIQUELME dos santos.

    vestido de HOMEM-ARANHA.

    acabou a ficção.

    morri.

  40. FERN diz:

    Apóio FERN e a Liga Pampa.
    a LIGA PAMPA tudo bem, mas a mim não entendi?

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